1962 - TOJEIRO-BUICK ECURIE ECOSSE COUPÉ
No início dos anos 1960, enquanto a indústria automobilística europeia começava a explorar as vantagens dos motores montados em posição central, uma pequena equipe escocesa decidiu desafiar os fabricantes mais estabelecidos das corridas de resistência. O resultado foi o Tojeiro Coupé da Ecurie Ecosse, um projeto desenvolvido para disputar as 24 Horas de Le Mans e que, depois de sucessivas transformações mecânicas, se tornaria conhecido como Tojeiro-Buick. Concebido em 1962, esse esportivo de competição reunia uma arquitetura avançada, carroceria artesanal de alumínio e uma história que acabaria cruzando o caminho de um jovem piloto escocês chamado Jackie Stewart.
A iniciativa partiu de David Murray, fundador e responsável pela Ecurie Ecosse, equipe que havia conquistado duas vitórias consecutivas nas 24 Horas de Le Mans, em 1956 e 1957, com o Jaguar D-Type. Sem um novo modelo oficial da Jaguar para substituir seu vencedor, Murray decidiu desenvolver um carro próprio. Para isso, recorreu a John Tojeiro, engenheiro e construtor britânico conhecido por seus esportivos de competição e por sua experiência com chassis leves. A encomenda previa dois coupés de motor central-traseiro, destinados à categoria GT Prototype de Le Mans, em uma iniciativa ambiciosa para uma equipe independente com recursos limitados.
O prazo era apertadíssimo. O projeto começou nos primeiros meses de 1962, e a equipe precisava preparar pelo menos um automóvel para a prova francesa de junho. Tojeiro adaptou conceitos estruturais de seus monopostos de Fórmula Júnior, ampliando e reforçando o chassi tubular de aço para acomodar dois ocupantes, o conjunto mecânico e uma carroceria fechada. O desenho foi confiado a Cavendish Morton, artista escocês com experiência em desenho aeronáutico, enquanto a fabricação dos painéis de alumínio ficou a cargo da Wakelands, de Byfleet. O resultado tinha um perfil baixo, cabine avançada em relação ao eixo traseiro, frente arredondada e uma silhueta compacta que contrastava com os grandes protótipos de motor dianteiro ainda presentes nas pistas.
A primeira configuração utilizava um motor Coventry Climax FPF de 4 cilindros, com 2.496 cm³ e cerca de 240 cv, montado atrás do piloto e associado a uma transmissão Cooper de 5 velocidades. A suspensão independente nas quatro rodas, os freios a disco e o chassi tubular evidenciavam a intenção de construir um carro leve e equilibrado, capaz de aproveitar as curvas dos circuitos sem depender exclusivamente da potência. A arquitetura de motor central-traseiro era especialmente promissora para um protótipo de resistência, mas a falta de tempo para testes e desenvolvimento tornava a estreia um desafio considerável.
O primeiro exemplar ficou pronto praticamente no limite do prazo e seguiu para a França sem um programa adequado de testes. Na edição de 1962 das 24 Horas de Le Mans, foi conduzido por Tommy Dickson e Jack Fairman. Apesar das dificuldades de preparação, o Tojeiro chegou a largar e demonstrou velocidade nas longas retas, mas abandonou após problemas na transmissão. A segunda unidade não ficou pronta a tempo para participar da prova. Ainda assim, a experiência revelou o potencial do conceito e levou a equipe a continuar desenvolvendo os carros nos anos seguintes.
A transformação mais importante veio com a adoção de um motor americano Buick V8 de aproximadamente 3.5 litros, uma unidade compacta de liga leve que oferecia uma entrega de torque mais generosa. Preparado pela equipe e equipado com lubrificação por cárter seco, pistões de maior compressão, comandos especiais e coletores de admissão desenvolvidos para a aplicação, o propulsor produzia cerca de 228 cv. A instalação exigiu modificações na carroceria e no conjunto de transmissão, mas proporcionou ao coupé uma personalidade bastante diferente daquela da configuração original com o Coventry Climax.
A carroceria também evoluiu ao longo do desenvolvimento. A traseira recebeu alterações inspiradas no conceito aerodinâmico de Kamm, com um corte mais abrupto para controlar o fluxo de ar, enquanto a equipe procurava reduzir peso e acomodar rodas e pneus maiores. O resultado não era necessariamente elegante segundo os padrões tradicionais, mas tinha uma aparência funcional, determinada pelas necessidades das pistas. A estrutura tubular, os painéis de alumínio e o conjunto mecânico central mantinham o peso na faixa de 775 kg, valor que, combinado aos 228 cv, proporcionava uma relação peso-potência muito favorável. A velocidade máxima registrada ou estimada para o carro variava conforme a configuração, mas relatos da época destacavam sua capacidade de alcançar aproximadamente 245 km/h em condições adequadas.
Foi com a configuração Buick que o Tojeiro ganhou um capítulo particularmente interessante na carreira de Jackie Stewart. Em 1963, ainda no início de sua trajetória internacional, o futuro tricampeão mundial de Fórmula 1 foi contratado por David Murray para competir pela Ecurie Ecosse. Ao volante do coupé, Stewart conquistou uma vitória em Snetterton e outros resultados expressivos em provas britânicas, demonstrando a capacidade de extrair desempenho de um carro experimental que exigia sensibilidade e adaptação. A parceria ajudou a aproximar o nome do jovem escocês da equipe que havia levado a bandeira da Escócia ao topo de Le Mans poucos anos antes.
O programa continuou em 1964, quando um dos chassis recebeu um motor Ford V8 da família Cobra e passou por novas alterações, incluindo a remoção do teto para competir como esportivo aberto. Essa evolução mostra como os Tojeiro da Ecurie Ecosse eram, em essência, plataformas experimentais: a equipe adaptava motores, transmissões e carrocerias para prolongar a vida competitiva dos carros, mesmo diante de recursos financeiros cada vez mais limitados. A Ecurie Ecosse já não possuía a mesma força dos anos de ouro com os Jaguar D-Type, mas o projeto Tojeiro demonstrava que ainda havia espaço para a criatividade de pequenos construtores britânicos.
O Tojeiro-Buick Ecurie Ecosse Coupé de 1962 representa um capítulo menos conhecido, mas muito significativo, da engenharia britânica. Seu projeto de motor central, a construção leve e as sucessivas adaptações mecânicas antecipavam soluções que se tornariam comuns nos protótipos de competição dos anos seguintes. Não foi um vencedor de Le Mans, mas foi um laboratório de ideias e uma peça importante na trajetória inicial de Jackie Stewart, além de um testemunho da criatividade de uma equipe independente que se recusava a abandonar as grandes corridas.