1962 - TRIUMPH ITALIA 2000 GT
O Triumph Italia 2000 GT é um automóvel clássico que representa uma fusão única entre a engenharia britânica e o design italiano, sendo um dos modelos mais fascinantes e menos conhecidos da história da Triumph. Produzido entre 1959 e 1962, o Italia 2000 GT foi idealizado pelo importador italiano de veículos Triumph, Salvatore Ruffino, que buscava criar um coupé esportivo elegante, combinando a confiabilidade mecânica do Triumph TR3 com a estética sofisticada de um Gran Turismo (GT) italiano. O resultado foi um carro que, apesar de sua curta produção e relativo insucesso comercial, tornou-se um ícone cult entre colecionadores de automóveis clássicos.
Origem e Concepção
No final dos anos 1950, o Triumph TR3 era um roadster britânico de sucesso, conhecido por sua robustez, desempenho e acessibilidade. No entanto, Salvatore Ruffino, proprietário da CESAC (empresa que distribuía os veículos Standard-Triumph na Itália), enxergou uma oportunidade no mercado para um modelo mais refinado. Ele queria oferecer um carro que unisse a mecânica confiável do TR3 com uma carroceria de design italiano, atraindo consumidores que desejavam a elegância de um GT sem o preço elevado de marcas como Ferrari ou Maserati.
Para transformar sua visão em realidade, Ruffino contratou o renomado designer Giovanni Michelotti, que já havia trabalhado com marcas como Ferrari e Maserati. Michelotti criou um design marcante, com linhas fluidas, faróis circulares integrados às asas dianteiras, uma grade retangular ampla e um capô longo com uma leve protuberância, elementos que remetiam aos GTs italianos da época. A carroceria foi construída à mão pela Carrozzeria Vignale, em Turin, sob a supervisão de Alfredo Vignale, conhecido por seu trabalho artesanal de alta qualidade.
O primeiro protótipo, conhecido como ‘slope-nose’ (nariz inclinado), foi apresentado no Salão de Turin em 1958. Apesar de bem recebido, o protótipo revelou problemas aerodinâmicos e de resfriamento do motor, o que levou à criação de um segundo protótipo com design revisado, mais próximo do modelo de produção. Esse segundo protótipo foi testado pela Standard-Triumph na pista de MIRA, na Inglaterra, onde alcançou velocidades impressionantes, sendo registrado como o segundo Triumph mais rápido da época, com apenas 1.200 milhas rodadas.
Produção e Características Técnicas
A produção do Triumph Italia 2000 GT começou oficialmente em julho de 1959, com as primeiras 13 unidades destinadas à promoção em concessionárias e salões automotivos. A produção em larga escala teve início em dezembro do mesmo ano, utilizando uma linha de montagem alugada pela CESAC nos ateliers da Vignale. O carro foi baseado no chassi e nos componentes mecânicos do Triumph TR3A, incluindo:
- Motor: 4 cilindros em linha, 1.991 cc, com 100 cv a 5.000 rpm e torque de 160 Nm a 3.000 rpm, equipado com dois carburadores SU (opções com carburadores Weber estavam disponíveis).
- Transmissão: Câmbio manual de 4 velocidades, com overdrive opcional.
- Dimensões: 3.940 mm de comprimento, 1.450 mm de largura, 1.240 mm de altura, com distância entre os eixos de 2.235 mm.
- Peso: Aproximadamente 975 kg.
- Configuração: Tração traseira, layout 2 plus 2 (dois assentos dianteiros e dois traseiros pequenos).
- Carroceria: Construída em aço (exceto o protótipo inicial, que usava alumínio em partes móveis) com acabamento artesanal.
O Italia 2000 GT oferecia opções como direção telescópica, rádio, aquecedor, interior em couro, rodas de arame Borrani e volante de madeira Nardi, o que reforçava sua imagem de carro premium. Sete cores de carroceria estavam disponíveis, incluindo preto, azul, vermelho e branco, mas, por ser um carro frequentemente feito sob encomenda, outras tonalidades podiam ser solicitadas.
Desafios Comerciais e Fim da Produção
Ruffino planejava produzir 1.000 unidades entre 1960 e 1961, com um acordo verbal para que cada um dos 720 concessionários Triumph no mundo adquirisse pelo menos um Italia. No entanto, o projeto enfrentou dificuldades significativas. O preço de venda, cerca de 2.500.000 liras na Itália e 5.000 dólares nos Estados Unidos, era consideravelmente mais alto que o do TR3 (cerca de 1.000 dólares a menos), tornando o Italia menos competitivo frente a rivais como o Jaguar E-Type ou o Chevrolet Corvette. Além disso, a falta de peças de reposição fora da Itália (os compradores nos EUA tinham que assinar um termo reconhecendo isso) desestimulou as vendas.
A situação piorou em 1961, quando a Standard-Triumph foi adquirida pela Leyland Motors. A nova administração concentrou seus esforços no Triumph TR4, também projetado por Michelotti, que incorporava elementos estilísticos do Italia (como a protuberância no capô e as linhas laterais) a um custo 30% menor. Sem o apoio da Triumph, Ruffino removeu as referências à marca do carro, rebatizando-o como ‘Italia 2000’. Apesar disso, a produção foi interrompida em setembro de 1961, com apenas 329 unidades construídas (323 com direção à esquerda e 6 com direção à direita, além de dois protótipos).
Os últimos 29 chassis, baseados no Triumph TR3B (códigos TSF501 a TSF530), ficaram estocados na Itália até 1964, quando foram enviados aos EUA. Alguns foram usados pela Standard-Triumph em New York, enquanto outros foram vendidos com descontos até 1965, muitas vezes após longos períodos em concessionárias.
Legado e Raridade
O Triumph Italia 2000 GT é hoje uma raridade, com cerca de 120 unidades sobreviventes, das quais aproximadamente 60 estão em condições de rodar. Sua exclusividade e o design elegante o tornam muito valorizado por colecionadores. Restaurações, como as realizadas pela British Sports Cars, muitas vezes utilizam chassis do Triumph TR4 para melhorar a dirigibilidade, já que o TR3 original tinha limitações, como direção tipo ‘worm and peg’ (com folga progressiva) e suspensão com curso limitado.
O Italia 2000 GT é um testemunho da ambição de combinar o melhor da engenharia britânica com a estética italiana. Apesar de seu fracasso comercial, o carro deixou um legado duradouro como um dos modelos mais belos e exclusivos da Triumph, com uma história que reflete tanto a criatividade quanto os desafios de um mercado automotivo em transformação.