1969 - VOLKSWAGEN EA 276 CONCEPT
No final dos anos 1960, a Volkswagen já tinha diante de si um problema que parecia quase impossível: como substituir o Fusca, o automóvel que havia construído a reputação mundial da marca sem abandonar a fórmula de simplicidade, confiabilidade e baixo custo que o tornara um fenômeno? Em Wolfsburg, engenheiros e designers começaram a trabalhar em diferentes alternativas, e entre elas surgiu, em 1969, o Volkswagen EA 276, um protótipo que, olhando hoje para sua trajetória, pode ser considerado um dos mais importantes antecessores do futuro Golf.
O EA 276 - sendo EA a abreviação de Entwicklungsauftrag, ou ‘ordem de desenvolvimento’ - apresentava uma ruptura particularmente significativa com o Fusca. Em vez do motor traseiro e da tração traseira, a proposta utilizava motor dianteiro e tração dianteira, configuração que permitia aproveitar muito melhor o espaço interno e estabeleceria a arquitetura fundamental dos futuros compactos da Volkswagen. A carroceria de duas portas tinha formato de hatchback, com uma grande tampa traseira, teto relativamente longo e traseira curta, antecipando de maneira bastante evidente a filosofia que seria consagrada pelo Golf alguns anos depois.
Curiosamente, porém, a Volkswagen ainda não estava preparada para abandonar completamente o passado. Debaixo do capô dianteiro do EA 276 encontrava-se uma versão modificada do conhecido motor boxer de 4 cilindros, refrigerado a ar, derivado do Fusca. A unidade tinha aproximadamente 1.493 cm³ e 44 cv a 4.000 rpm, segundo registros históricos do protótipo, e era justamente uma tentativa de aproveitar uma mecânica extremamente conhecida e confiável para reduzir custos e riscos de desenvolvimento. A velocidade máxima registrada para o protótipo era de aproximadamente 130 km/h.
Era uma solução curiosa: uma carroceria conceitualmente moderna movida por uma mecânica pertencente à geração anterior. A Volkswagen pretendia conservar no EA 276 a confiabilidade e a economia de produção associadas ao motor do Fusca, mas sua posição dianteira exigia adaptações. O tanque de combustível foi colocado sob o banco traseiro, enquanto o estepe ficava horizontalmente sob o assoalho do compartimento de bagagem, soluções que ajudavam a liberar espaço e demonstravam que os engenheiros já pensavam em uma utilização muito mais racional do volume interno.
Também havia elementos de chassi que apontavam diretamente para o futuro. O EA 276 utilizava suspensão dianteira McPherson e um eixo traseiro de torção, combinação que se tornaria característica dos compactos europeus e que estava perfeitamente alinhada com a arquitetura que a Volkswagen posteriormente empregaria no Golf.
Visualmente, entretanto, o protótipo ainda não possuía a elegância geométrica que Giorgetto Giugiaro imprimiria ao Golf. O EA 276 tinha uma aparência mais quadrada e experimental, com grandes superfícies planas e proporções que revelavam claramente sua natureza de protótipo. Mesmo assim, sua silhueta já continha aquilo que posteriormente se tornaria a fórmula clássica do Golf: capô curto, cabine avançada, grande área envidraçada, traseira vertical e enorme aproveitamento do espaço interno.
E aqui está uma das partes mais interessantes de sua história. O EA 276 não foi simplesmente um exercício de estilo; ele foi efetivamente construído para testar uma arquitetura que a Volkswagen considerava para o sucessor do Fusca. Apenas uma unidade foi produzida, e o exemplar não era sequer totalmente funcional. Ainda assim, sua importância histórica é enorme porque demonstrava que Wolfsburg já havia compreendido que o futuro dos seus automóveis compactos estava na combinação de motor dianteiro, tração dianteira e carroceria hatchback.
O problema estava justamente no motor. Enquanto a arquitetura do EA 276 apontava para o futuro, seu boxer refrigerado a ar representava o passado. A Volkswagen já vinha experimentando outras soluções e, no início dos anos 1970, a decisão definitiva seria tomada em favor de motores de 4 cilindros em linha refrigerados a água, muito mais adequados à nova geração de veículos. A chegada de Rudolf Leiding à direção da Volkswagen em 1971, depois de sua experiência com os Audi 100 e 80, seria decisiva para colocar a empresa definitivamente nessa direção.
O EA 276 acabou, portanto, sendo superado por outras propostas durante a corrida que levaria ao Golf. A solução escolhida para a produção seria desenvolvida com participação decisiva de Giorgetto Giugiaro e da Italdesign, resultando no projeto que se transformaria no Golf de primeira geração, lançado em 1974. A grande mudança seria justamente a combinação entre a arquitetura dianteira/dianteira já experimentada no EA 276 e uma mecânica moderna refrigerada a água.
Há, contudo, uma curiosa conexão brasileira nessa história. O conceito fundamental experimentado pelo EA 276 - compacto de motor dianteiro, tração dianteira e suspensão McPherson - acabaria encontrando uma espécie de segunda vida no Brasil. O Volkswagen Gol, lançado em 1980, nasceu originalmente com motor boxer refrigerado a ar montado na dianteira, uma solução que guardava uma curiosa semelhança técnica com aquela experimentada pelo EA 276 onze anos antes.
Assim, o pequeno protótipo alemão de 1969 ocupa um lugar singular na história da Volkswagen. Ele não foi o Golf, não chegou à produção e sequer utilizava a motorização que definiria a nova geração da marca. Mas, em sua carroceria de duas portas, na grande tampa traseira, no motor dianteiro e na tração dianteira estava praticamente desenhado o caminho que levaria a Volkswagen a uma de suas maiores revoluções. O EA 276 foi, em essência, o momento em que o futuro começou a ganhar forma enquanto o passado ainda continuava escondido sob o capô.