O AMT Centaur Piranha CRV-II é um marco na história automotiva dos anos 60 do século passado, representando uma ousada iniciativa de inovação em materiais e design. Desenvolvido inicialmente pela Centaur Engineering em parceria com a Marbon Chemical, uma divisão da Borg-Warner, o projeto teve como objetivo promover o uso de plástico Cycolac ABS na construção de automóveis, um material então mais comum em aplicações industriais, como telefones. O CRV-II, parte da série de protótipos Cycolac Research Vehicle (CRV), destacou-se por sua abordagem revolucionária, combinando estética futurista, leveza e desempenho competitivo.
Origens e Desenvolvimento
No início dos anos 1960, a Marbon Chemical buscava demonstrar as possibilidades do Cycolac, um termoplástico ABS forte e durável, na indústria automotiva, até então dominada por carrocerias metálicas pesadas. Para isso, contratou Dann Deaver, designer e cofundador da Centaur Engineering, para criar um carro-conceito que utilizasse esse material inovador. A Centaur, especializada em carros de corrida, trouxe expertise técnica para o projeto. Junto com a Jentzen-Miller Company, especialista em moldagem de plásticos, e o designer William M. Schmidt, responsável pelo estilo da carroceria, a equipe desenvolveu o CRV, um roadster de dois lugares com design arrojado, incluindo faróis cobertos e uma estrutura de carroceria em duas peças de Cycolac montada sobre um chassi tubular de aço ou fibra de vidro.
O primeiro protótipo, o CRV-I, foi equipado com um motor Sunbeam Imp de 4 cilindros e apresentado em janeiro de 1965 na convenção da Society of Automotive Engineers (SAE) em Detroit, onde atraiu grande atenção. A recepção positiva levou à construção do CRV-II, agora com um motor Corvair turboalimentado montado na traseira, chassis de aço em chapa e portas funcionais, diferindo do protótipo inicial. Esse modelo foi projetado para ser mais prático e próximo de uma possível produção, além de ser testado em competições para demonstrar a durabilidade do Cycolac.
Envolvimento da AMT e o Piranha
A AMT Corporation, conhecida por fabricar modelos de carros em escala, viu potencial no projeto e adquiriu os direitos da Marbon para produzir o CRV em escala real e como kit de montagem em escala 1/24. Sob a liderança de Gene Winfield, da divisão Speed and Custom da AMT, o veículo foi renomeado ‘Piranha’, evocando a ferocidade do peixe amazônico e alinhando-se à tendência de nomes animais na indústria automotiva da época (como Mustang e Barracuda). O Piranha CRV-II apresentava modificações significativas em relação aos protótipos da Centaur, incluindo uma carroceria superior redesenhada e um chassi de aço em chapa, mantendo o peso leve de aproximadamente 635 kg e o motor Corvair turboalimentado.
A AMT planejava produzir até 50 unidades do Piranha, mas a construção artesanal tornou o projeto caro, resultando em apenas 6 ou 7 carros completados. Além da versão de rua, a AMT desenvolveu variantes, como um carro de corrida para a SCCA (Sports Car Club of America) e um dragster para competições de arrancada, além de uma versão personalizada para a série de TV The Man from U.N.C.L.E., que se tornou icônica.
Desempenho e Legado nas Competições
O CRV-II/Piranha destacou-se em competições, comprovando a resistência do Cycolac. Em 1965, pilotado por Trant Jarman, o CRV-II venceu o campeonato da classe D-Modified da SCCA, superando expectativas e sobrevivendo a uma colisão com um Jaguar, que ficou muito mais danificado. O carro também participou de corridas menores e eventos de subida de montanha na Califórnia, mantendo sua carroceria plástica original, considerada praticamente insubstituível.
A versão dragster do Piranha, equipada com um motor Chrysler 392 modificado, competiu em arrancadas, alcançando velocidades impressionantes, como 182,64 mph (294 km/h) em sua estreia em Irwindale, Califórnia. Essa performance reforçou a reputação do Piranha como um veículo versátil e inovador.
Impacto Cultural e Sobrevivência
O Piranha ganhou notoriedade além das pistas, especialmente por sua aparição em The Man from U.N.C.L.E., onde foi equipado com acessórios fictícios, como armas, para a série de espionagem. Restaurado por Robert Short, esse exemplar é exibido em convenções e feiras. Outros sobreviventes incluem o carro de corrida de Carbajal e o dragster, preservado no Don Garlits Museum, na Flórida.
Apesar do plano inicial de produção em massa, a AMT cancelou o projeto devido aos altos custos. A Marbon, focada em promover o Cycolac, não tinha interesse em produção em larga escala, e os moldes foram revendidos. Mais tarde, a Allied ofereceu uma versão em fibra de vidro chamada Seagull, mas com alterações que comprometeram o design original.
O AMT Centaur Piranha CRV-II de 1965 é um exemplo fascinante de inovação automotiva, combinando materiais avançados, design visionário e desempenho competitivo. Embora sua produção tenha sido limitada, o projeto demonstrou o potencial do plástico na indústria automotiva e deixou um legado duradouro, tanto nas pistas quanto na cultura pop. Hoje, os poucos exemplares sobreviventes são altamente valorizados por colecionadores, e o Piranha permanece como um ícone dos anos 60, simbolizando a ousadia e a criatividade de uma era de experimentação automotiva.