Em uma garagem modesta nos arredores de Londres, nasceu um... não, renasceu... um nome que já foi sinônimo de velocidade absoluta nos anos 1920: Invicta. Fundada em 1925 por Noel Macklin, um aristocrata com alma de engenheiro, a marca produziu alguns dos carros esportivos mais potentes e caros de sua era pré-guerra. Extinta em 1950, ressuscitou em 2004 como uma butique de luxo contemporâneo. Hoje, a Invicta Car Company de Surrey fabrica o Black Prince - um coupé de fibra de carbono com motor V8 - provando que mesmo um leão adormecido por meio século ainda pode rugir.
Tudo começou em uma propriedade rural em Cobham. Macklin, ex-oficial da Marinha Real e piloto de corrida, queria construir “o melhor carro esportivo do mundo”. Com capital do amigo Oliver Lyle (da família do açúcar Tate & Lyle), ele montou a Invicta Cars em 1925. O primeiro modelo, o 2.5-litre Low Chassis de 1926, tinha motor Meadows de 2.5 litros e 80 cv - números modestos hoje, mas suficientes para 140 km/h na época. O chassi ultra-baixo (apenas 18 cm do solo) deu à Invicta sua assinatura: curvas tomadas como se estivesse nos trilhos.
O ápice veio com o lendário S Type ‘Black Prince’ de 1930. Equipado com motor Meadows 4.5-litre de 6 cilindros e 140 cv, o S Type era um monstro. Pesava 1.600 kg, mas acelerava de 0 a 100 km/h em menos de 15 segundos - tempo de supercarro para os padrões da época. Custava 1.050 libras esterlinas (equivalente a 70.000 hoje), mais que um Bentley 4.5 Litre. Apenas 75 unidades foram feitas até 1933, cada uma personalizada. Um exemplar venceu a classe de 5 litros no Rally de Monte Carlo de 1931, pilotado por Donald Healey (futuro fundador da Austin-Healey).
A Grande Depressão quase matou a empresa. Em 1933, Macklin vendeu a Invicta para a Rootes Brothers, que a transferiu para Chelsea. A produção caiu para modelos mais acessíveis, como o 12/45 de 1934, mas a qualidade nunca foi a mesma. A Segunda Guerra Mundial interrompeu tudo: a fábrica virou depósito de munições. Em 1946, a Invicta tentou renascer com o Black Prince - um sedan futurista com motor Meadows 3-litre, suspensão independente nas quatro rodas e freios hidráulicos. Apresentado no Salão de Londres de 1946, era avançado demais e caro demais (3.500 libras esterlinas). Apenas 16 unidades saíram da linha antes da falência em 1950.
Por 54 anos, a Invicta foi apenas memória - e objeto de culto. Exemplares do S Type trocaram de mãos por seis dígitos em leilões da Bonhams. Um chassi de 1931 bateu 365.000 libras esterlinas em 2018.
O renascimento veio em 2004, quando Michael Bristow, empresário de Surrey, comprou os direitos da marca. Sem relação com a original, a nova Invicta Car Company posicionou-se como fabricante de nicho. O primeiro modelo, o S1 de 2007, era um roadster de fibra de carbono com motor Ford V8 4.6-litre de 320 cv, chassi tubular e tração traseira. Custava 120 mil libras esterlinas - caro, mas acessível comparado a um Aston Martin.
O carro-chefe atual é o Invicta Black Prince 2024, homenagem ao protótipo de 1946. Construído à mão em Surrey, usa monocoque de carbono, motor Roush V8 5.0-litre supercharged de 600 cv e transmissão manual de 6 velocidades. Acelera de 0 a 100 km/h em 3.8 segundos e atinge 290 km/h. Preço? 250.000 libras esterlinas mais impostos. Cada unidade leva 1.200 horas para ser montada; a produção anual é limitada a 12 exemplares. Clientes incluem colecionadores do Oriente Médio e entusiastas britânicos que querem ‘um Morgan com esteroides’.
“Não estamos recriando o passado; estamos evoluindo o DNA”, diz Bristow em entrevista à Autocar. A empresa também oferece restaurações de S Types originais, com preços a partir de 400.000 libras esterlinas.
Críticos elogiam a engenharia - o Black Prince passou nos testes de emissões Euro 6 sem híbridos - mas questionam o volume. “É um carro para quem já tem um Ferrari e quer algo que ninguém mais tem”, resume o jornalista Andrew Frankel, da Goodwood Road & Racing.
De Macklin a Bristow, a Invicta atravessou duas guerras, uma depressão e meio século de esquecimento. Hoje, com apenas uma dúzia de funcionários e uma garagem que mais parece ateliê, a marca prova que velocidade não é só sobre potência: é sobre raridade, história e o rugido de um leão que se recusa a morrer. Em um mundo de SUVs elétricos, a Invicta permanece invicta - invicta no tempo, invicta no asfalto.