A história da Salmson é uma fascinante trajetória de inovação e adaptação, marcada por sua evolução de uma empresa de bombas hidráulicas para um importante fabricante de automóveis e aviões na França, com contribuições significativas em ambos os setores. Fundada em 1890 por Émile Salmson (1858-1917), a empresa começou como uma oficina em Paris, sob o nome ‘Emile Salmson, Ing.’, focada na produção de compressores a vapor e bombas centrífugas para aplicações ferroviárias e militares. O nome Salmson reflete a origem sueca da família, com Émile sendo filho de Jean-Jules Salmson e neto de Jean-Baptiste Salmson.
Primórdios e Expansão
Em 1896, Émile Salmson uniu forças com os engenheiros George Canton e Georg Unné, formando a ‘Emile Salmson et Cie’. A empresa expandiu suas operações, passando a fabricar elevadores movidos a motores a gasolina de produção própria. Esse foi o primeiro passo rumo à diversificação, que culminaria na entrada da Salmson no setor de aviação. No início do século XX, a empresa tornou-se uma das pioneiras na fabricação de motores aeronáuticos, projetados especificamente para aviões, uma área ainda incipiente antes da Primeira Guerra Mundial.
Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Salmson destacou-se na produção de motores radiais refrigerados a ar e água, como a série Salmson 9, fabricada em sua planta em Billancourt. A empresa também desenvolveu aviões completos, com destaque para o Salmson 2A2, um avião de caça e reconhecimento de dois lugares utilizado pelas forças francesas e americanas. Outro projeto notável foi o protótipo do caça monolugar Salmson 3, embora não tenha sido produzido em larga escala. A Salmson também marcou presença no transporte aéreo, com seus aviões sendo usados para serviços de correio aéreo para a Índia em 1911 e, em 1931, a piloto Maryse Bastié estabeleceu dois recordes mundiais de distância (2.976.91 km) em um voo de Le Bourget a Moscou com um avião equipado com motor Salmson.
Entrada no Setor Automotivo
Após a Primeira Guerra Mundial, a Salmson diversificou suas operações para o setor automotivo, inicialmente fabricando carrocerias e, posteriormente, veículos completos. Como a empresa não tinha experiência prévia em design automotivo, começou produzindo o ciclocarro britânico GN sob licença, exibindo seis unidades no Paris Motor Show de 1919. Em 1922, a divisão automotiva tornou-se uma empresa independente, a Société des Moteurs Salmson, sob a liderança de Emile Petit.
Os primeiros carros da Salmson utilizavam um motor de 4 cilindros projetado por Petit, com um sistema de válvulas inovador, onde uma única haste acionava tanto as válvulas de admissão quanto de escape. Em 1921, a empresa lançou o modelo AL, seguido pelo D-type, equipado com um motor de duplo comando de válvulas no cabeçote. A Salmson rapidamente se destacou no automobilismo, vencendo 550 corridas e estabelecendo dez recordes mundiais entre 1921 e 1928. A empresa também dominou o MCF Grand Prix, vencendo seis de suas oito edições, e obteve quase sessenta vitórias em provas de subida de montanha, como a de Griffoulet, em 1921, e Wartberg, em 1934, graças à excepcional manobrabilidade de seus veículos.
Na década de 1929, a Salmson lançou a série S, que substituiu o D-type e se tornou uma linha de longa duração. Após a Segunda Guerra Mundial, a empresa retomou a produção com os modelos Salmson Type S4E e S4-61, que mantinham semelhanças externas, mas diferiam em motores (13 cv para o S4E e 10 cv para o S4-61). Em 1947, o S4E recebeu uma atualização estilística, com arcos de roda mais pronunciados e faróis integrados à carroceria. No entanto, as vendas foram impactadas por políticas fiscais francesas que penalizavam carros com motores grandes, além de uma economia estagnada no pós-guerra. Em 1948, a Salmson produziu 336 unidades, um aumento modesto em relação às 143 de 1947, mas ainda insuficiente para competir com as grandes montadoras de luxo.
Declínio e Retorno às Origens
A Salmson enfrentou dificuldades financeiras crescentes, culminando em sua falência em 1953. As atividades automotivas e aeronáuticas foram encerradas em 1957, e a fábrica em Billancourt foi adquirida pela Renault. A empresa voltou a focar na produção de bombas hidráulicas, transferindo suas instalações para Mayenne em 1961. Em 1962, foi comprada pela ITT-LMT e, em 1976, pela Thomson, consolidando sua transição para o setor de equipamentos industriais.
No final do século XX e início do XXI, a Salmson expandiu novamente suas operações, diversificando sua linha de produtos e serviços. Atualmente, a empresa mantém sua sede em Chatou, com instalações de produção em Laval e subsidiárias em países como Argentina, Itália, Líbano, Portugal, África do Sul e Vietnam. Embora tenha deixado de fabricar automóveis e aviões, a Salmson permanece ativa como uma empresa de engenharia, com foco em bombas e outros equipamentos industriais.
Legado
A Salmson deixou um legado notável tanto na aviação quanto no automobilismo. Seus motores aeronáuticos e aviões, como o Salmson 2A2, foram fundamentais durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto seus automóveis marcaram época no automobilismo francês, com vitórias expressivas em competições e recordes mundiais. A empresa exemplifica a capacidade de adaptação, transitando entre setores tão distintos quanto bombas, aviões e carros, e continua a ser reconhecida como uma das pioneiras da engenharia francesa.