A Saga Esquecida da SAMAS: o pequeno fabricante italiano que desafiou gigantes com um mini-furoristrada lendário
Em meio à explosão automotiva dos anos 1970 na Itália - época de FIAT, Alfa Romeo e Lancia dominando as estradas -, uma empresa artesanal do interior do Piemonte escreveu um capítulo à parte na história do automóvel. Nascia, em 1970, na pequena Ricca d’Alba (província de Cuneo), a Società Albese Meccanica Autoveicoli Speciali (SAMAS), uma sociedade em nome coletivo fundada por Renzo Chiarle e sócios. O nome, longo e pomposo, escondia uma ambição simples e audaciosa: construir veículos especiais, robustos e acessíveis para terrenos difíceis, longe das linhas de montagem em massa.
O grande projeto da SAMAS foi o Yeti, um fora-de-estrada em miniatura que já havia ganhado forma inicial sob a Delta Veicoli Speciali, de Turin. O engenheiro Carlo Ferrari, o mesmo criador do pioneiro Ferves Ranger, foi o cérebro por trás do conceito: um 4x4 compacto (cerca de 3.10 m de comprimento), leve, com tração integral, reduzida e, em algumas versões, até direção nas quatro rodas - raridade absoluta na época, que reduzia o raio de giro a impressionantes 5.20 metros. Ideal para trilhas alpinas, agricultura ou uso recreativo, o Yeti combinava chassi perimetral galvanizado, suspensões independentes por molas transversais e uma carroceria aberta simples, mas extremamente funcional.
A produção pela SAMAS começou por volta de 1971 e se estendeu até 1975. O motor inicial era o confiável FIAT 850 (843 cm³, 42 cv), substituído depois pelo mais moderno FIAT 903 cm³ (cerca de 47 cv). A transmissão de quatro marchas com redutor entregava 8 velocidades à frente e duas à ré, permitindo subir ladeiras de mais de 45° carregado. Com peso em ordem de marcha de apenas 850 kg, o pequeno ‘monstro’ alcançava 100 km/h em estrada e era capaz de carregar quatro pessoas mais bagagem. A construção era totalmente artesanal: cada exemplar saía ligeiramente diferente, com acabamentos personalizados, capotas e portas removíveis. No total, estima-se que menos de 75 unidades tenham sido fabricadas sob a marca SAMAS (incluindo as herdadas da Delta), tornando o modelo um dos fuoristrada mais raros da Itália.
Não parou por aí. Em 1973, a SAMAS assumiu outro projeto ambicioso: a LMX Automobile, de Milão. A empresa piemontesa incorporou o restante dos chassis do esportivo LMX Sirex (um coupé fastback com motor Ford V6 e carroceria de fibra desenhada por Franco Scaglione) e deu continuidade à produção sob o nome Sirex LMS (ou LMX). Cerca de 20 unidades saíram da fábrica até 1974, fechando com chave de ouro a fase automobilística da SAMAS.
A aventura automotiva durou pouco. Em 1975, com produção encerrada e a empresa liquidada, a SAMAS deixou de fabricar carros. O sonho do fuoristrada de ‘pequena cilindrada, mas grandes prestações’ - como a própria empresa definia - foi substituído por outro: o de uma oficina especializada em usinagem de precisão, reparos e peças sob medida para indústrias alimentícia, têxtil e mecânica. Curiosamente, a atual Samas Lavorazioni Meccaniche, ainda em atividade na região de Alba, reivindica essa mesma origem de 1970 e exibe com orgulho fotos do Yeti 903 (e até de protótipos infantis e uma versão 6x6) nos corredores da fábrica.
Hoje, os poucos Yeti sobreviventes são disputados por colecionadores em leilões e encontros de clássicos. São relíquias de uma Itália que ainda acreditava no ‘fatto a mano’: veículos únicos, construídos com paixão em galpões pequenos, longe dos holofotes de Turin. A SAMAS nunca vendeu milhares de unidades nem mudou a indústria. Mas, por alguns anos, provou que, com engenhosidade e teimosia piemontesa, era possível colocar um mini-Yeti para enfrentar montanhas - e vencer. Uma história curta, mas que, como o próprio nome do modelo sugere, ainda deixa marcas na neve da memória automotiva italiana.