A Xiaomi Auto, divisão automotiva da gigante chinesa de eletrônicos Xiaomi, escreveu em menos de dois anos uma das histórias mais impressionantes da indústria de veículos elétricos inteligente. O que começou como uma aposta ousada do fundador Lei Jun - que chamou o projeto de “o último grande empreendimento da minha vida” - transformou-se em um fenômeno de mercado que abalou até a Tesla na China.
Tudo teve origem em março de 2021, quando Lei Jun anunciou que a Xiaomi investiria 10 bilhões de yuans (cerca de 1.4 bilhão de dólares na época) em um novo negócio de veículos elétricos inteligentes. A decisão veio em meio a temores de sanções americanas contra a empresa, que ameaçavam o futuro de dezenas de milhares de funcionários. Em vez de buscar parcerias rápidas com montadoras tradicionais, Lei insistiu em desenvolver tudo internamente: do design à bateria, do software à produção. A subsidiária Xiaomi Automobile foi oficialmente criada em setembro de 2021, com fábrica em Pequim e uma equipe de engenharia que atraiu milhares de currículos.
O primeiro fruto dessa ambição chegou em 28 de dezembro de 2023, com a revelação do SU7, um sedan elétrico de porte médio-grande que imediatamente chamou atenção por seu design inspirado no Porsche Taycan, desempenho superior (aceleração de 0-100 km/h em menos de 3 segundos nas versões top) e preço agressivo - a partir de cerca de 215.900 yuans (aproximadamente 165 mil reais na conversão da época). O lançamento oficial ocorreu em 28 de março de 2024, em Pequim, com Lei Jun no palco prometendo “vitória inabalável”. As entregas começaram em abril, e o modelo rapidamente virou sensação: mais de 88 mil pedidos em 24 horas e 248 mil confirmações até o fim de 2024.
O SU7 não ficou apenas no hype. Em menos de um ano, a Xiaomi entregou 135 mil unidades em 2024, superando metas internas. O modelo se consolidou como o sedan elétrico mais vendido na faixa acima de 200 mil yuans na China por 18 meses consecutivos, batendo o Tesla Model 3 em vários períodos. Em junho de 2025, veio o segundo modelo: o YU7, um SUV fastback que rivaliza diretamente com o Tesla Model Y. O YU7 explodiu em vendas - mais de 150 mil unidades entregues em apenas seis meses, 2.3 vezes o ritmo do SU7 no mesmo período inicial.
O ano de 2025 foi de consolidação explosiva. A Xiaomi entregou mais de 410 mil veículos no total (incluindo um recorde de mais de 50 mil só em dezembro), superando a meta revisada de 350 mil unidades. A marca alcançou a impressionante marca de 500 mil veículos produzidos cumulativamente em novembro, um recorde global entre marcas de EVs novas - conquistado em menos de 20 meses desde o início das entregas. A rede de lojas e centros de serviço explodiu para centenas de pontos em mais de 80 cidades chinesas.
O ano de 2026 começou com mais notícias eletrizantes. Em 7 de janeiro, a Xiaomi abriu pré-vendas da nova geração do SU7 (facelift 2026), com lançamento oficial previsto para abril. O modelo chega com plataforma de alta voltagem (até 900V), LiDAR padrão em todas as versões, autonomia de até 902 km (CLTC), carregamento ultra-rápido, reforços de segurança (aço de alta resistência) e foco renovado em condução autônoma via sistema Xiaomi HAD. Apesar de um leve aumento de preço (iniciando em torno de 229.900 yuans, cerca de 33 mil dólares), o carro continua mais acessível que o Model 3 em muitos aspectos.
Olhando para o futuro, a Xiaomi planeja lançar quatro novos modelos em 2026: o facelift do SU7, uma versão executiva de longa distância entre-eixos (SU7 L), um SUV de cinco lugares EREV (híbrido de alcance estendido) e um SUV grande de sete lugares EREV. A meta para o ano é ambiciosa: 550 mil entregas, crescimento de cerca de 34% sobre 2025.
De uma decisão arriscada em 2021 a uma das marcas mais quentes do mercado chinês de EVs em 2026, a trajetória da Xiaomi Auto é um exemplo clássico da nova era chinesa: velocidade implacável, integração com ecossistema tech (celulares, casa inteligente) e preços que desafiam os rivais globais. Lei Jun costuma repetir que o objetivo é entrar no top 5 mundial de montadoras em 15-20 anos. Pelo ritmo atual, poucos duvidam que a Xiaomi esteja no caminho certo.