A ZIL (Zavod Imeni Likhachova), que significa Fábrica Likhachov, foi um dos mais icônicos fabricantes de automóveis, caminhões e veículos militares da antiga União Soviética, com sede em Moscou. Fundada em 1916 como Avtomobilnoe Moskovskoe Obshchestvo (AMO, ou Sociedade Automotriz de Moscou), a empresa inicialmente planejava produzir caminhões FIAT F-15 sob licença, mas a Revolução de Outubro de 1917 e a subsequente Guerra Civil Russa atrasaram a produção até 1924, quando o primeiro veículo, o caminhão AMO-F15, foi fabricado, marcando o início da indústria automotiva soviética.
Em 1931, com o apoio técnico da empresa americana A.J. Brandt, a fábrica foi modernizada e renomeada Zavod Imeni Stalina (ZIS), em homenagem a Joseph Stalin. Durante essa fase, a ZIL começou a produzir caminhões mais avançados, como o AMO-2 e o ZIS-5, que se tornaram amplamente utilizados. Em 1936, a empresa lançou seu primeiro automóvel de passageiros, o ZIS-101, inspirado no Buick americano (sem licença), seguido pelo ZIS-110 em 1946, baseado no Packard. Durante a Segunda Guerra Mundial, a ZIL desempenhou um papel crucial, produzindo o caminhão ZIS-6, usado como base para o lançador de foguetes Katyusha, além de morteiros e granadas para o esforço de guerra.
Após a morte de Stalin em 1953, durante o processo de desestalinização, a fábrica foi renomeada Zavod Imeni Likhachova em 1956, em homenagem a Ivan Likhachov, seu ex-diretor. A ZIL tornou-se sinônimo de limusines de luxo, como o ZIL-111 (1958-1967), que entrou para o Guinness como o maior carro de passageiros do mundo, e os modelos ZIL-114 e ZIL-117, usados exclusivamente por altos funcionários do governo soviético. Essas limusines, frequentemente blindadas, eram símbolos do poder do Estado, equipadas com motores V8 potentes, como o de 6.959 cc do ZIL-117, que alcançava até 300 cv e velocidades de 190-200 km/h. Apenas algumas dezenas dessas limusines eram produzidas anualmente, muitas feitas sob encomenda.
Além das limusines, a ZIL era a maior fabricante russa de caminhões e veículos pesados, com modelos como o ZIL-130, amplamente exportado, inclusive para Cuba, e o ZIL-170, que serviu de base para os veículos da KAMAZ. A empresa também produziu veículos especializados, como o anfíbio ZIL-4906 ‘Bluebird’, usado para resgatar cápsulas Soyuz, e até bicicletas e refrigeradores em períodos de diversificação. Durante seu auge, empregava mais de 60.000 trabalhadores.
Após a dissolução da URSS em 1991, a ZIL enfrentou dificuldades. A concorrência com caminhões chineses mais baratos e a falta de modernização levaram a uma crise financeira crítica nos anos 2000. A produção do caminhão ZIL-130 terminou em 1994, e a fabricação de limusines caiu drasticamente. O último veículo ZIL foi montado em 2012, e a empresa foi declarada falida em 2013. A maior parte de suas instalações foi desmantelada em 2015, e o terreno de 3.000 hectares foi convertido em um projeto imobiliário pela LSR Group. Apesar disso, uma pequena operação, a MSTs6 AMO ZIL, continuou funcionando em 2021 com 47 funcionários, produzindo peças e veículos em escala reduzida na região de Moscou.
A ZIL deixou um legado marcante, com suas limusines sendo ícones da era soviética, usadas em desfiles na Praça Vermelha e em visitas oficiais, como as de Mikhail Gorbachev aos EUA. Seus veículos são hoje objetos de colecionadores, com modelos como o ZIL-117 sendo reproduzidos em miniaturas detalhadas por empresas como Radon. A fábrica também é lembrada em documentários, como The Last Limousine (2014), que retrata seu declínio. A ZIL permanece um símbolo da engenhosidade e do poder industrial soviético, apesar de seu fim como fabricante ativo.