A HISTÓRIA DO BOCAR XP: O ESPORTIVO AMERICANO QUE DESAFIOU O MUNDO
Em uma garagem modesta nas montanhas rochosas de Lakewood, Colorado, no final dos anos 1950, um engenheiro aeronáutico chamado Bob Carnes sonhava em criar algo revolucionário.
Apaixonado por corridas e frustrado com a dominação europeia no mundo dos carros esportivos, Carnes decidiu construir um veículo americano que fosse não apenas rápido, mas também o mais seguro do planeta.
Era o auge da era dos hot rods, e Carnes, um piloto local conhecido por sua personalidade extrovertida e amor por competições barulhentas, via uma oportunidade de unir engenharia inovadora com o espírito americano de inovação.
Tudo começou em 1957, quando Carnes fundou a Bocar - um nome astuto derivado das iniciais de ‘Bob Carnes’.
Seu primeiro protótipo, o Bocar X-1, surgiu em 1958, uma máquina fibrosa de fibra de vidro montada sobre um chassi tubular, equipada com suspensão Jaguar na frente, eixo Lincoln atrás e um motor V8 Chevy de 283 polegadas cúbicas (cerca de 4.6 litros).
Não era apenas um carro; era uma declaração de independência automotiva. Carnes testou o X-1 na lendária Pikes Peak Hill Climb daquele ano, terminando em quinto lugar na classe de carros esportivos - um resultado promissor para um iniciante, mas que revelava a necessidade de mais refinamentos e potência.
Após iterações como o X-2 e X-3, veio o XP-4 no final de 1958, o primeiro modelo de produção da série XP.
Com um chassi de tubos redondos de cromo-molibdênio 4130, suspensão de barra de torção VW/Porsche na frente e um setup de quatro links no eixo traseiro, o XP-4 era uma evolução técnica impressionante.
Vendido como kit ou montado, custava cerca de 6.450 dólares na versão completa - um preço acessível para entusiastas que queriam um carro de pista que também pudesse rodar nas ruas.
Carnes promovia o veículo como “um grito das Montanhas Rochosas”, e ele não exagerava: com peso distribuído e corpo leve, o XP-4 virava cabeças e acelerava corações.
No ano seguinte, 1959, o Bocar XP-5 elevou o patamar. Melhorias incluíam freios Buick Alfin e uma distribuição de peso otimizada (44% na frente, 56% atrás), alcançada ao reposicionar o motor mais para trás e ligeiramente para a direita.
Vários XP-5 competiram em Pikes Peak, onde Carnes e rivais como Frank Peterson disputavam posições ferozes. Um deles, o Peterson Special, tornou-se lendário nas subidas íngremes do Colorado.
Revistas da época, como a Sports Car Graphic, elogiavam o carro por sua velocidade e manuseio, chamando-o de “um competidor americano que enfrentava o mundo”.
Mas a história do Bocar XP foi curta, como um sprint em alta velocidade. A produção total da empresa, incluindo todos os modelos, não passou de poucas dezenas de unidades - estimativas variam entre 15 e 30 carros, a maioria destinada a corridas.
Em 1961, um incêndio devastador destruiu a fábrica, forçando Carnes a encerrar as operações.
O que restou foram lendas: carros raros que hoje valem fortunas em leilões, como um XP-5 vendido por centenas de milhares de dólares, ou réplicas construídas por entusiastas como Doug Karon, que mantêm vivo o espírito original.
O Bocar XP representa mais do que um carro; é um capítulo esquecido da engenhosidade americana, onde um homem comum desafiou gigantes com fibra de vidro e motores V8 rugindo.
Nas curvas de Pikes Peak ou nas garagens de colecionadores, seu legado ecoa: a prova de que, às vezes, os underdogs aceleram mais forte.