A SAGA DO DEUTSCH-BONNET PANHARD HBR5 DE 1957: O ÍCONE ESQUECIDO DAS PISTAS
Em uma era dominada por rugidos de V8 americanos e a elegância alemã dos Porsche, um pequeno coupé francês ousou desafiar os gigantes. O Deutsch-Bonnet Panhard HBR5, especialmente o modelo de 1957, não era apenas um carro: era uma declaração de independência, um foguete de fibra de vidro impulsionado por um motor boxer de 848 cm³ que ecoava o espírito rebelde do pós-guerra francês. Produzido em uma fábrica modesta em Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, o HBR5 representava o auge de uma parceria improvável entre dois visionários: Charles Deutsch, o engenheiro aerodinâmico com instinto para curvas, e René Bonnet, o mecânico pragmático obcecado por vitórias nas pistas.
A história do HBR5 remonta a 1932, quando Bonnet assumiu a oficina de carrocerias da família Deutsch, transformando-a em um celeiro de inovações. Interrompidos pela Segunda Guerra Mundial, os dois só formalizaram a Deutsch-Bonnet (DB) em 1947, apostando em motores leves da Panhard para criar veículos ágeis e econômicos. O HBR5, lançado em 1954 e refinado até 1959, surgiu como a resposta perfeita a essa visão: um coupé gran turismo com carroceria de fibra de vidro - a segunda em produção em série no mundo, logo após o Corvette da Chevrolet. Em 1957, o modelo ganhou toques de luxo, como acabamentos cromados e pinturas bicolores, mas manteve sua essência competitiva, com um chassi de viga central de aço tubular, suspensão independente nas quatro rodas e tração dianteira herdada do Panhard Dyna Z.
Tecnicamente, o HBR5 de 1957 era uma obra de precisão minimalista. Seu motor boxer refrigerado a ar de 848 cc, equipado com dois carburadores Solex, entregava cerca de 50-52 cv na versão ‘Coach Luxe’ - potência modesta, mas suficiente para impulsionar os 600-635 kg do carro a velocidades acima de 160 km/h. A transmissão manual de 4 velocidades, acionada por cabos, tinha um padrão de trocas peculiar, deslocado em 90 graus até meados de 1957, o que exigia adaptação dos pilotos. Com freios a tambor eficientes e rodas independentes com barras de torção na traseira, o HBR5 priorizava equilíbrio e aerodinâmica: seu coeficiente de arrasto baixo, projetado por Deutsch, fazia dele um predador em circuitos sinuosos. Nos EUA, onde cerca de 150 unidades foram vendidas, a revista Road & Track o elogiou em dezembro de 1957 como “um carro bem construído e confortável, perfeito para uso duplo como gran turismo ou competidor”, custando 3.850 dólares - quase o preço de um Porsche 1600 Coupé.
Mas o verdadeiro brilho do HBR5 estava nas pistas, onde ele acumulou um currículo que humilhava rivais de cilindrada maior. Em 1957, o modelo consolidou a reputação da DB com vitórias consecutivas na classe até 1.0 litro: cinco triunfos na Mille Miglia (1953-1957), quatro nas 12 Horas de Sebring (1953, 1954, 1956 e 1959) e dois no Tourist Trophy (1953 e 1955). Nas 24 Horas de Le Mans, os HBRs dominaram o Índice de Desempenho de 1953 a 1956, 1959 e 1960, com Bonnet e o lendário Élie Bayol terminando em 10º geral em 1954. Na Mille Miglia de 1957, um HBR5 pilotado por Jacques Badoche e Ruprecht Hoppen cruzou a linha de chegada em 5º na classe e 142º geral, partindo de Brescia à meia-noite com o número 83 - uma façanha que ecoou nas manchetes italianas como prova do ‘pequeno gigante francês’.
Não era só sorte: o HBR5 venceu quase mil corridas em sua categoria, tornando a DB o fabricante francês com mais participações em Le Mans até hoje. Exemplares como o chassi 933, entregue novo em outubro de 1957 a um entusiasta de Quimper, rodaram no Tour de France Automobile, Targa Florio, Rally Monte-Carlo e Rally de Picardie, misturando luxo de rua com fúria de rally. Até o príncipe Rainier de Mônaco pilotou um em eventos locais, elevando o status da marca.
No entanto, o sucesso foi efêmero. Divergências entre Deutsch, fiel aos motores Panhard, e Bonnet, que sonhava com Renault e layouts de motor central, racharam a parceria em 1961. A DB se dissolveu: Deutsch seguiu com a CD, enquanto Bonnet fundou a Automobiles René Bonnet, absorvida pela Matra em 1964 - berço do lendário Matra Djet. Dos cerca de 428 HBR5 produzidos (mais 10 ‘Super Rallye’ em 1960-1961), menos de 200 sobrevivem hoje, muitos restaurados para eventos como a Le Mans Classic ou a moderna Mille Miglia.
Décadas depois, o HBR5 de 1957 permanece um enigma fascinante: um carro que provou que inovação e leveza valem mais que potência bruta. Em um mundo de hipercarros elétricos, ele nos lembra que o verdadeiro legado das corridas está na ousadia de sonhadores como Deutsch e Bonnet. Se você encontrar um em leilão - como os raros que aparecem por 62.500 euros -, não hesite: é mais que um clássico; é um pedaço da França que acelerou o futuro.