ABARTH 1300 SCORPIONE 1970: O PEQUENO VENENOSO DE TURIN
A Itália de 1970 era um país fervendo de criatividade automotiva. Ferrari, Maserati, Lamborghini e Alfa Romeo disputavam atenções com supermáquinas exuberantes, mas, nos bastidores desse espetáculo, uma pequena fábrica de Turin continuava a desafiar gigantes com carros leves, agressivos e cheios de caráter. Era o mundo de Carlo Abarth, o austríaco naturalizado italiano que transformava cilindradas modestas em puro tempero esportivo.
Nesse cenário vibrante surge o Abarth 1300 Scorpione, um dos projetos mais intrigantes e raros da marca. Antes de tudo, vale lembrar que o carro nasceu como Lombardi Grand Prix, uma criação independente de chassi e carroceria que chamou a atenção de Abarth pelo seu potencial. O pequeno coupé tinha proporções perfeitas para um esportivo compacto: baixíssimo, com linhas angulosas e uma postura agressiva. Abarth enxergou ali uma tela em branco - e decidiu transformá-la em algo mais afiado, mais rápido e mais venenoso.
Sob o controle da equipe de Turim, o modelo ganhou um motor de 1.3 litros preparado em alma e sopro. O bloco de 4 cilindros, devidamente ajustado pelo ‘toque mágico’ da Abarth, entregava cerca de 75 a 90 cv dependendo da especificação - números que, hoje, podem parecer modestos, mas que, aplicados a uma carroceria extremamente leve, faziam do Scorpione um brinquedo sério. O carro pesava pouco mais de 700 kg e oferecia uma dirigibilidade direta, visceral, com aquele comportamento típico dos esportivos italianos menores: ágil, arisco e deliciosamente comunicativo.
Visualmente, o Scorpione era um pequeno predador. A carroceria, baixa e tensa, parecia sempre pronta para dar o bote. O capô curto, a traseira descendente, a cabine apertada e quase monolítica, tudo reforçava a sensação de um carro feito para duas pessoas que, ao assumir o volante, aceitavam o pacto de pilotagem pura. Não havia luxo - apenas o essencial para conduzir, sentir e ouvir o motor trabalhar bem atrás dos ombros.
No interior, a simplicidade imperava: instrumentos justos, volante esportivo pequeno, bancos baixos e quase colados ao chão. Cada comando transmitia diretamente a mecânica, sem filtros, como se o carro e o piloto conversassem de igual para igual. É esse tipo de experiência crua que, hoje, colecionadores buscam desesperadamente em carros que não se preocupavam em isolar vibrações, mas sim em transmitir sensações.
O Abarth 1300 Scorpione permanece como um dos modelos mais peculiares da marca. Produzido em números muito baixos e por um período curto, é um daqueles veículos que escapam dos holofotes mas brilham intensamente nas mãos de quem conhece sua história. Ele representa a ousadia de Carlo Abarth em transformar ideias alheias em algo mais potente, mais agudo, mais excitante - e absolutamente fiel ao espírito do escorpião.
O 1300 Scorpione é tão raro que, nos dias atuais, muitos entusiastas confundem seus sobreviventes com o Lombardi original. Abarth produziu tão poucas unidades que identificar um exemplar legítimo exige atenção a detalhes mínimos de preparação, num verdadeiro jogo de detetive para aficionados.