ABARTH 207A BOANO COUPÉ (1955): O ESCORPIÃO QUE QUIS CONQUISTAR A AMÉRICA
Na Itália do pós-guerra, onde a reconstrução econômica fervilhava e o automobilismo se tornava sinônimo de paixão nacional, Carlo Abarth - o austríaco naturalizado italiano que transformava modelos comuns da FIAT em máquinas de corrida - decidiu mirar mais alto. Em 1955, ele apresentou no Salão de Turin o Abarth 207A Boano, um esportivo leve e agressivo concebido especialmente para o exigente mercado americano, onde as corridas de pequeno deslocamento começavam a ganhar espaço.
Não era um carro de produção em massa. Apenas cerca de 10 unidades foram construídas, todas com carroceria artesanal assinada por Mario Boano e executada pela Carrozzeria Boano, em Turin. O resultado era uma silhueta baixa e aerodinâmica, com linhas fluidas, para-lamas pronunciados e uma postura agressiva que lembrava os grandes protótipos de Le Mans, mas em escala reduzida. A versão mais conhecida é a Speedster (roadster aberto), embora existam referências a configurações coupé ou semi-fechadas no trabalho de Boano, sempre priorizando leveza e desempenho.
O coração do 207A batia em torno de um motor derivado do FIAT 1100/103, um bloco de 4 cilindros em linha de 1.089 cm³ com válvulas no cabeçote (OHV). A mágica de Abarth transformava o modesto propulsor: compressão elevada, coletor de admissão redesenhado, escapamento esportivo e, principalmente, dois carburadores duplos Weber 36 DCO4. O resultado? Cerca de 66 cv a 6.000 rpm - quase o dobro da potência original do FIAT -, com lubrificação por cárter seco em algumas unidades de competição. Acoplado a uma transmissão manual de 4 velocidades e pesando apenas cerca de 525 kg, o pequeno escorpião alcançava velocidades próximas de 165-185 km/h, números impressionantes para um carro de 1.1 litros na metade dos anos 1950.
O chassi era uma estrutura tubular de aço reforçado, inspirada em elementos do FIAT 1100, mas otimizada para rigidez e leveza. Freios a tambor de alumínio nas quatro rodas garantiam parada eficiente, enquanto a suspensão independente na frente e eixo rígido atrás ofereciam um equilíbrio entre conforto em estrada e precisão em pista. O tanque de combustível pequeno (cerca de 32 litros) reforçava o caráter de puro-sangue de competição.
Destinado principalmente ao mercado norte-americano, o 207A foi importado por figuras como Tony Pompeo e disputado em corridas regionais. Seu design elegante e performance surpreendente chamavam atenção: era um carro que provava que, com engenhosidade italiana, era possível competir de igual para igual com máquinas muito maiores.
Hoje, os poucos exemplares sobreviventes são raridades absolutas, cobiçadas por colecionadores e frequentemente vistas em eventos como o Mille Miglia Storica ou leilões de alto nível. O Abarth 207A Boano de 1955 não foi um sucesso comercial de volume, mas representou o espírito puro da marca fundada por Carlo Abarth: transformar o ordinário em extraordinário, com leveza, potência concentrada e um visual que ainda hoje faz o coração dos entusiastas bater mais forte.
Era o escorpião italiano pronto para picar os gigantes - pequeno no tamanho, gigantesco na alma esportiva.