ABARTH OT 2000 COUPÉ ‘PERISCOPIO’: QUANDO A OUSADIA ITALIANA ENCONTROU A AERODINÂMICA EXTREMA
Viajar pela Itália dos anos 1960 é reencontrar um país que respirava velocidade. Era um período em que pequenas oficinas, engenheiros visionários e carrozziers geniais faziam do automobilismo um campo fértil para experimentação. E poucas figuras simbolizaram tão bem essa inquietação criativa quanto Carlo Abarth, o austríaco naturalizado italiano que transformou motores pequenos em gigantes e fez do Escorpião uma marca de respeito absoluto nas pistas europeias.
Em meio a esse turbilhão de projetos, surge um dos carros mais intrigantes e ousados já concebidos pela marca: o Abarth OT 2000 Coupé ‘Periscopio’, apresentado em 1965. A linhagem OT (‘Omologazione Turismo’) já era famosa por suas versões nervosas do FIAT 850 e do 1000, mas aqui o desafio era maior: criar um coupé de alta performance capaz de humilhar adversários de cilindrada superior. Abarth, fiel a seu estilo, aceitou o desafio com agressividade técnica e um toque quase teatral.
O primeiro impacto vinha da carroceria: baixa, estreita, pontiaguda e com uma traseira recortada como se tivesse sido esculpida pelo vento. O nome ‘Periscopio’ não era exagero; a entrada de ar elevada, projetada como um periscópio cravado acima da linha do teto, captava o fluxo necessário para alimentar e resfriar o motor montado atrás. Essa solução incomum chamava atenção nos paddocks e fazia o pequeno coupé parecer mais um protótipo de Le Mans do que um carro de turismo.
Debaixo dessa carenagem extrema pulsava um motor de 4 cilindros de 1.946 cm³, preparado ao ‘estilo Abarth’: altas rotações, carburadores generosos e um tom metálico que misturava agressividade e precisão. A potência rondava os 200 cv, um número impressionante para um carro tão compacto - e devastador nas provas de subida de montanha e em circuitos mais travados, onde peso e agilidade falavam mais alto que cavalaria bruta.
O chassi leve e a distribuição de massa favoreciam a direção nervosa e exigente, típica dos Abarth mais ferozes. O ‘Periscopio’ não perdoava erros: era um carro para pilotos corajosos, acostumados a extrair o máximo de máquinas pequenas com comportamento imprevisível. Mas, nas mãos certas, tornava-se uma arma afiada, capaz de surpreender Porsche, Alfa Romeo e até modelos de cilindrada superior na mesma categoria.
A aparência também contribuía para seu mito. Os faróis carenados, o capô dianteiro longo e fino, os ombros traseiros elevados e a silhueta de ‘bala aerodinâmica’ criavam a estética de um projétil prestes a ser lançado. Não era um carro feito para ser bonito - era feito para vencer. E é justamente essa honestidade esportiva que o tornou tão fascinante para os entusiastas e colecionadores.
Há ainda um detalhe curioso que reforça o caráter experimental da época: muitos ‘Periscopio’ eram montados quase artesanalmente, com diferenças sutis entre si. A Abarth trabalhava como um laboratório de competição, adaptando soluções conforme surgiam problemas ou oportunidades. Isso faz com que cada exemplar conte uma pequena história própria, como se fosse um protótipo permanente.
O Abarth OT 2000 Coupé ‘Periscopio’ de 1965 permanece como um símbolo da audácia italiana durante o auge das corridas de turismo. Um carro que parecia pequeno, mas pensava grande; que tinha cilindrada modesta, mas atitude de gigante; e que mostrou, mais uma vez, que Carlo Abarth era mestre em transformar limites em vantagem. Um escorpião que ferroava competidores muito maiores e deixava um rastro de admiração por onde passava.