ALPINE A450B LMP2 (2013): O PROTÓTIPO QUE MARCOU O RENASCIMENTO DA ALPINE NAS CORRIDAS DE LONGA DURAÇÃO
Quando a Alpine anunciou seu retorno às competições internacionais em 2013, o anúncio representou muito mais do que a estreia de um novo carro de corrida. Era o renascimento de uma das marcas mais tradicionais do automobilismo francês, ausente das pistas de alto nível desde o fim da década de 1970, quando conquistara sua histórica vitória nas 24 Horas de Le Mans de 1978 com o lendário Alpine-Renault A442B. Trinta e cinco anos depois, o fabricante de Dieppe voltava ao cenário da resistência com um projeto moderno, desenvolvido em parceria com a Signatech, dando origem ao Alpine A450, que evoluiria rapidamente para a especificação A450B, tornando-se um dos protótipos LMP2 mais competitivos de sua geração.
Embora o nome Alpine estivesse novamente estampado na carroceria, o projeto tinha como base o consagrado Oreca 03, um dos chassis mais bem-sucedidos da categoria LMP2. A Signatech já possuía ampla experiência com essa plataforma em temporadas anteriores competindo como Nissan, o que permitiu à equipe desenvolver rapidamente um automóvel extremamente confiável e competitivo. A Alpine rebatizou o protótipo como A450, retomando deliberadamente a nomenclatura utilizada pelos seus carros de competição das décadas de 1960 e 1970, reforçando a ligação entre passado e presente.
Visualmente, o A450B era um legítimo protótipo Le Mans. Sua carroceria em fibra de carbono apresentava perfil extremamente baixo, cockpit fechado por um amplo para-brisa panorâmico e uma elaborada aerodinâmica composta por divisor dianteiro, grandes entradas de ar laterais, difusor traseiro e uma ampla asa ajustável. A tradicional pintura em Azul Alpine, complementada por detalhes em branco e vermelho, evocava imediatamente os históricos carros da marca francesa que brilharam nas provas de endurance durante os anos 1960 e 1970.
Toda a estrutura era construída em torno de um monocoque integral de fibra de carbono homologado pela FIA e pelo ACO. O conjunto atendia aos rigorosos requisitos de segurança da categoria LMP2, oferecendo elevada rigidez torcional e excelente proteção aos pilotos em caso de acidente, sem comprometer o baixo peso do veículo. Com aproximadamente 900 quilos, o A450B encontrava-se muito próximo do peso mínimo regulamentar.
O coração do protótipo era um robusto motor Nissan VK45DE, um V8 atmosférico de 4.5 litros, preparado especificamente para as exigências das provas de longa duração. Desenvolvendo cerca de 450 cv de potência, o propulsor privilegiava confiabilidade, elasticidade e baixo consumo de combustível, fatores fundamentais em corridas de seis, doze ou vinte e quatro horas. Embora sua potência fosse inferior à dos LMP1 da época, o equilíbrio entre desempenho e durabilidade fazia dele uma das referências da classe LMP2.
A transmissão era uma caixa sequencial Xtrac de 6 velocidades, acionada por borboletas atrás do volante e integrada a um diferencial autoblocante desenvolvido para maximizar a tração nas saídas de curva. Como em todos os protótipos modernos, as trocas de marcha eram extremamente rápidas, permitindo ao piloto manter o motor permanentemente dentro da faixa ideal de funcionamento.
A suspensão utilizava braços triangulares sobrepostos nas quatro rodas, acionados por hastes (push-rods) e amortecedores montados horizontalmente no interior da carroceria. Essa configuração não apenas reduzia o arrasto aerodinâmico como também permitia ajustes extremamente precisos para cada circuito. O conjunto era complementado por freios de carbono ventilados e rodas de magnésio equipadas com pneus desenvolvidos especificamente para as provas de endurance.
O cockpit seguia a filosofia dos protótipos contemporâneos. O piloto encontrava uma posição de condução bastante reclinada, com excelente visibilidade frontal proporcionada pelo amplo para-brisa. O volante multifuncional concentrava praticamente todos os comandos eletrônicos do veículo, incluindo mapas do motor, ajustes de controle eletrônico e sistemas de comunicação com os boxes. Os instrumentos digitais forneciam informações constantes sobre temperatura, consumo de combustível, pressão dos pneus e diversos parâmetros mecânicos indispensáveis durante provas de longa duração.
O programa esportivo foi conduzido pela Signatech Alpine, equipe comandada por Philippe Sinault, que rapidamente demonstrou o potencial do novo carro. Em sua temporada de estreia, o A450 conquistou os títulos de equipes e pilotos da European Le Mans Series (ELMS) com Nelson Panciatici e Pierre Ragues, resultado particularmente expressivo para um projeto completamente novo. Curiosamente, a dupla venceu apenas uma corrida ao longo do campeonato, mas sua extraordinária regularidade foi suficiente para garantir os dois campeonatos.
O grande objetivo, entretanto, era o retorno às 24 Horas de Le Mans, prova que havia eternizado a Alpine em 1978. Em junho de 2013, o carro número 36, pilotado por Nelson Panciatici, Pierre Ragues e Tristan Gommendy, completou sua missão com sucesso ao cruzar a linha de chegada, terminando entre os dez primeiros da categoria LMP2. Mais importante do que a classificação foi o simbolismo da participação, que marcou oficialmente o retorno da Alpine ao palco mais importante do automobilismo de resistência após três décadas e meia de ausência.
A evolução para o A450B surgiu pouco depois, incorporando melhorias aerodinâmicas, novos acertos de suspensão e otimizações específicas para os circuitos do Campeonato Mundial de Endurance e, especialmente, para Le Mans. Essas alterações permitiram ao modelo manter-se competitivo durante as temporadas seguintes e preparar o terreno para projetos cada vez mais ambiciosos da marca francesa.
O sucesso do A450 e do A450B teve enorme importância estratégica. Ele demonstrou que a Alpine possuía novamente credibilidade esportiva e capacidade técnica para competir entre os melhores fabricantes do mundo. Esse programa abriu caminho para o desenvolvimento do Alpine A460, vencedor da categoria LMP2 em Le Mans em 2016, e posteriormente para o retorno oficial da marca ao Campeonato Mundial de Endurance na classe principal, culminando com os atuais protótipos Hypercar.
Hoje, o Alpine A450B LMP2 ocupa um lugar especial na história da marca de Dieppe. Embora não tenha conquistado vitórias absolutas em Le Mans como seus ilustres antecessores, foi ele quem devolveu a Alpine ao universo das grandes corridas de resistência, restabelecendo uma tradição interrompida por mais de três décadas. Seu desempenho consistente, sua confiabilidade exemplar e seu sucesso na European Le Mans Series demonstraram que o espírito competitivo da Alpine permanecia intacto. Mais do que um eficiente protótipo da categoria LMP2, o A450B tornou-se o símbolo do renascimento esportivo da marca francesa, servindo como a ponte entre o glorioso passado das décadas de 1960 e 1970 e a nova era que levaria a Alpine novamente ao mais alto nível do automobilismo mundial.