AMERICAN UNDERSLUNG SCOUT 1913: O PEQUENO REVOLUCIONÁRIO DE INDIANAPOLIS
Em 1913, enquanto a América acelerava rumo à modernidade em estradas ainda rudimentares, a American Motor Car Company, então em sua agonia, lançou um último suspiro de genialidade: o American Underslung Scout. Este compacto roadster, com seu chassi inovador ‘underslung’ - montado abaixo dos eixos para um centro de gravidade baixo - não era apenas um carro; era uma declaração de que estilo, performance e ousadia podiam coexistir em um pacote acessível. Projetado para atrair jovens entusiastas e condutores aventureiros, o Scout de 1913 foi uma tentativa audaciosa de salvar uma empresa à beira do colapso, deixando um legado que ainda brilha em concursos de clássicos como Pebble Beach.
A American Motor Car Company, fundada em 1906 em Indianápolis, já era conhecida por seus veículos underslung, uma ideia do engenheiro Fred L. Tone que invertia a suspensão convencional, posicionando o chassi sob os eixos com molas semi-elípticas montadas acima. Introduzido em 1907, o conceito trouxe estabilidade inigualável em curvas e uma silhueta esportiva que antecipava os hot rods do futuro. Em 1912, a empresa adotou oficialmente o nome American Underslung, e o Scout surgiu como o modelo de entrada, projetado para competir com o Ford Model T e atrair compradores com orçamento limitado, mas desejo por algo além do comum.
O Scout de 1913, disponível como roadster de dois lugares, era o menor da linha, com entre-eixos de 2.540 mm - comparado aos 2.845 mm do Traveler ou do Touring. Sob o capô, um motor T-head de 4 cilindros e 3.2 litros produzia modestos 30 cv, suficientes para alcançar 80 km/h em pistas de terra. Acoplado a uma transmissão manual de 3 velocidades, o motor usava lubrificação por salpico e carburador de barril único, priorizando simplicidade e economia. A suspensão, com molas longitudinais de 965 mm, e os freios mecânicos traseiros garantiam robustez, enquanto rodas de 36 polegadas com pneus de faixa branca enfrentavam os terrenos acidentados da época. A carroceria, em alumínio sobre estrutura de madeira, exibia linhas minimalistas com para-lamas curvos, faróis de acetileno em latão e um radiador arredondado, muitas vezes pintado em tons sóbrios como verde escuro ou azul-marinho, com detalhes em vermelho nas rodas.
Com preço inicial de 1.250 dólares - quase o dobro de um Model T, mas bem abaixo dos 4.000 dólares de um Underslung Traveler -, o Scout era vendido como “o carro para os poucos exigentes”. A campanha publicitária destacava sua dirigibilidade ágil e estética esportiva, apelando a condutores que queriam se destacar sem ostentar. No entanto, a produção foi limitada: em 1913, a American fabricava apenas algumas centenas de unidades no total, com o Scout representando uma fração desse número devido à crise financeira que culminaria na falência em novembro do mesmo ano. Registros sugerem que menos de 50 Scouts foram construídos, tornando-o uma raridade desde o início.
Um exemplar notável, restaurado na década de 1990, conta a história de um Scout resgatado de um celeiro em Iowa. Originalmente comprado por um médico de Indiana para visitas domiciliares, o carro foi esquecido até ser redescoberto em 1975. Com motor reconstruído e pintura em dois tons (preto e vermelho), ele apareceu no Amelia Island Concours de 2009, ganhando elogios por sua autenticidade. Outro Scout, exposto no Indianapolis Motor Speedway Museum, reflete o orgulho local: restaurado com peças originais, incluindo um velocímetro Stewart e lanternas de latão, ele foi leiloado em 2018 pela RM Sotheby’s por cerca de 85.000 dólares - um valor modesto para sua raridade, mas reflexo de um mercado que ainda subestima a marca.
O Scout de 1913 enfrentou um mercado implacável. A ascensão do Model T, com sua produção em massa e preço imbatível, ofuscou a engenhosidade do underslung, enquanto a gestão ineficiente e os custos elevados de construção artesanal selaram o destino da American. Ainda assim, o carro deixou marcas: seu design inspirou futuros esportivos, e Harry Stutz, fundador da empresa, levou o conceito de chassi baixo para o seu Stutz Bearcat, um ícone da era. Corridas regionais, como a Indianapolis Sweepstakes, viram Scouts competindo com coragem, mas sem vitórias notáveis, limitados por sua potência modesta.
Hoje, com menos de uma dúzia de Scouts sobreviventes, o modelo é uma joia para colecionadores. Em eventos como o Goodwood Revival, seu ronco suave e silhueta atarracada evocam a era do latão, quando a América sonhava grande com motores pequenos. O American Underslung Scout de 1913 não venceu a Ford, mas conquistou algo maior: um lugar na história como o azarão que ousou ser diferente - baixo, rápido e eternamente memorável.