ARMSTRONG SIDDELEY SAPPHIRE 1955: O EPÍTOME DO LUXO BRITÂNICO
O Armstrong Siddeley Sapphire é um marco da engenharia automotiva britânica, representando o auge do luxo e da sofisticação em sua era. Produzido pela Armstrong Siddeley Motors Limited, uma empresa conhecida por sua tradição em veículos de alta qualidade e motores aeronáuticos, o Sapphire era um saloon de grande porte que combinava elegância, desempenho e conforto, direcionado à elite que buscava uma alternativa aos Rolls-Royce, Bentleys e Jaguars da época.
O Armstrong Siddeley Sapphire, lançado em 1952 e produzido até 1960, era um automóvel que exalava distinção. Em 1955, o modelo estava em plena produção, com as versões Sapphire 234, Sapphire 236 e Sapphire 346, cada uma projetada para atender a diferentes perfis de condutores, mas todas compartilhando a assinatura estilística da marca: a grade dianteira em forma de V, adornada com o mascote Sphinx, símbolo de silêncio e sofisticação. Em algumas versões, o Sphinx trazia pequenas réplicas dos motores a jato Sapphire, uma homenagem à divisão aeronáutica da empresa, que fabricava motores para aviões como o Republic F-84F Thunderstreak e o Gloster Javelin.
Design e Construção
O Sapphire de 1955 era um saloon de quatro portas, com linhas clássicas e imponentes, projetado para oferecer conforto e status. A versão 346, a mais emblemática, media cerca de 4.9 metros de comprimento (5.38 metros na versão limusine), com uma largura de 1.83 metros e altura de 1.61 metros. A carroceria, disponível em configurações de quatro ou seis janelas laterais, era finalizada com materiais de alta qualidade, como couro Connolly nos assentos e acabamentos em madeira de nogueira no painel e nas portas. O modelo 234 e 236, embora menores (4.57 metros de comprimento), mantinham o mesmo nível de refinamento, mas com uma abordagem mais esportiva no caso do 234.
A versão limusine do Sapphire 346, lançada em 1955, destacava-se por seu chassi alongado (3.38 metros de entre-eixos contra 2.89 metros do saloon padrão), oferecendo espaço adicional e uma divisória interna, ideal para uso executivo ou oficial. Este modelo era particularmente apreciado por sua suavidade e silêncio, características que levaram à alcunha ‘Sphinx’ - uma referência à sua condução quase inaudível. Conta-se que a Rainha Elizabeth II preferia dirigir um Sapphire quando não estava obrigada a usar um Rolls-Royce, evidenciando seu prestígio.
Desempenho e Engenharia
O Sapphire de 1955 oferecia três opções de motorização, cada uma com características distintas:
Sapphire 234: Equipado com um motor de 4 cilindros em linha de 2.290 cc, produzia 120 cv a 5.000 rpm, com torque de 189 Nm a 3.500 rpm. Com uma transmissão manual de 4 velocidades (opcional com overdrive), alcançava uma velocidade máxima de 155 km/h e acelerava de 0 a 96 km/h em cerca de 15.5 segundos. Este modelo era voltado para condutores que buscavam desempenho esportivo, com a opção de rodas raiadas para um toque extra de estilo. Apenas 803 unidades foram produzidas entre 1955 e 1958.
Sapphire 236: Com um motor de 6 cilindros em linha de 2.309 cc, herdado do modelo Whitley, entregava 85 cv a 4.500 rpm. Disponível com uma transmissão manual ou a inovadora Lockheed Manumatic (sem embreagem), este modelo priorizava conforto e condução suave, com velocidade máxima de 137 km/h. Foram fabricadas 603 unidades entre 1955 e 1957, mas sua popularidade foi limitada em comparação com o 346.
Sapphire 346: O mais luxuoso da linha, equipado com um motor de 6 cilindros de 3.435 cc, oferecia 125 cv na versão com carburador único e até 150 cv com carburadores duplos Stromberg, atingindo velocidades acima de 160 km/h. Testes da revista The Motor em 1953 registraram uma aceleração de 0 a 96 km/h em 13 segundos e consumo de 6.6 km/l. O modelo podia ser equipado com uma transmissão manual de 4 velocidades, uma transmissão automática Rolls-Royce Hydramatic ou o pré-seletor Wilson, este último uma opção sofisticada por 30 libras esterlinas adicionais. Com 7.697 unidades produzidas, o 346 foi o mais bem-sucedido da linha.
A suspensão dianteira independente com molas helicoidais e a traseira com eixo rígido e molas de lâmina garantiam um equilíbrio entre conforto e estabilidade. Os freios hidráulicos Girling, com tambores de 11 polegadas, eram robustos para a época, e a direção assistida (padrão em modelos posteriores, como o Star Sapphire) começava a ser introduzida como opcional.
Legado e Recepção
O Sapphire de 1955 era um símbolo de status, frequentemente comparado a marcas como Daimler e Jaguar, mas com uma personalidade distinta. Seu preço, que variava de 1.757 libras esterlinas (346 saloon) a 1.839 libras esterlinas (234), refletia seu posicionamento no mercado de luxo. Apesar disso, as versões 234 e 236 enfrentaram dificuldades comerciais, com vendas modestas devido à concorrência com modelos mais acessíveis e modernos, como o Jaguar Mark IX. A baixa popularidade desses modelos contribuiu para o declínio financeiro da Armstrong Siddeley, que encerrou sua produção automotiva em 1960 para focar em motores aeronáuticos.
Curiosamente, o Sapphire ganhou notoriedade cultural, aparecendo em obras como Diamonds Are Forever (1956), de Ian Fleming, onde James Bond é transportado em um Sapphire com placas de revendedor vermelho, e no filme britânico Wicked as They Come (1956), reforçando sua imagem de veículo de elite.
Estado Atual
Hoje, o Armstrong Siddeley Sapphire é uma raridade, especialmente os modelos 234 e 236, devido à baixa produção e à falta de apelo comercial na época. Exemplares bem preservados, como um Sapphire 346 de 1955 restaurado com carpete Coverdale novo, são altamente valorizados por colecionadores. Um modelo limusine de 1955, com 78.158 milhas, foi listado em leilão em 2015, e outro, em left-hand drive (LHD), foi oferecido na Holanda por 10.818 libras esterlinas, destacando sua originalidade e certificado de fábrica.
O Armstrong Siddeley Sapphire é um testemunho da engenhosidade britânica, combinando elegância clássica com tecnologia avançada para sua época. Embora não tenha conquistado o mercado como seus concorrentes, sua exclusividade, acabamento artesanal e conexão com a história automotiva e aeronáutica o tornam um ícone para entusiastas de carros clássicos. Seja na versão esportiva 234, na confortável 236 ou na majestosa 346, o Sapphire permanece como um símbolo de uma era em que o luxo automotivo era sinônimo de silêncio, sofisticação e prestígio.