ASCARI KZ1: UM NOME ITALIANO PARA UM SONHO BRITÂNICO
A Inglaterra no início do século XXI apresentava um cenário automotivo curioso. O país que havia dado ao mundo algumas das mais tradicionais marcas esportivas vivia um novo ciclo de ousadia independente, com pequenos fabricantes buscando espaço entre gigantes. Foi nesse ambiente de ambição e experimentação que surgiu o Ascari KZ1, um superesportivo britânico que, apesar do nome de sonoridade italiana, carregava uma identidade profundamente inglesa.
A Ascari Cars foi fundada por Klaas Zwart, empresário holandês radicado no Reino Unido e apaixonado por automobilismo. O nome ‘Ascari’ não foi escolhido ao acaso: tratava-se de uma homenagem direta a Alberto Ascari, bicampeão mundial de Fórmula 1 nos anos 1950, símbolo de precisão, talento e herança ítalo-europeia no esporte a motor. O acrônimo KZ, por sua vez, nada mais era do que a assinatura pessoal de seu criador, marcando o carro com iniciais que reforçavam o caráter artesanal do projeto.
Apresentado em 2003, o KZ1 foi concebido desde o início como um supercarro sem concessões. Seu design evitava exageros futuristas, apostando em linhas limpas, baixas e funcionais, com clara prioridade para a aerodinâmica. A carroceria em fibra de carbono moldava um perfil largo e musculoso, mais próximo da linguagem dos carros de competição do que dos superesportivos de vitrine. Era um carro que transmitia seriedade técnica antes mesmo de ligar o motor.
E o motor era, de fato, o coração do projeto. O KZ1 utilizava um V8 de 5.0 litros de origem BMW, derivado do propulsor do M5 (E39), preparado para uso esportivo extremo. Com cerca de 500 cv de potência, o conjunto empurrava um carro relativamente leve, construído sobre um monocoque de fibra de carbono, permitindo acelerações vigorosas e velocidades máximas que ultrapassavam facilmente os 300 km/h. A transmissão manual reforçava o envolvimento do condutor, em uma época em que as caixas automáticas ainda não dominavam o segmento.
O chassi do Ascari KZ1 era uma de suas maiores virtudes. Desenvolvido com forte inspiração em carros de corrida, oferecia rigidez excepcional e comportamento preciso em pista. Suspensão independente, freios de alto desempenho e distribuição de peso cuidadosamente equilibrada faziam do KZ1 um carro elogiado pela crítica especializada por sua estabilidade e resposta direta aos comandos.
O interior refletia a filosofia da marca: funcional, esportivo e sem excessos decorativos. Materiais leves, acabamento em fibra de carbono aparente e instrumentação focada no essencial deixavam claro que o KZ1 era um carro feito para ser dirigido, não apenas admirado. Ainda assim, havia um nível de conforto suficiente para torná-lo utilizável fora das pistas - um compromisso típico dos superesportivos britânicos.
A produção do Ascari KZ1 foi extremamente limitada, com apenas algumas dezenas de unidades construídas. Mais do que números, porém, o modelo deixou como legado a prova de que ainda havia espaço para projetos independentes altamente técnicos no início do novo milênio. A Ascari chegou a desenvolver uma versão ainda mais radical, o KZ1R, focada em uso de pista, reforçando sua vocação esportiva.
A Ascari chegou a construir seu próprio circuito privado, o Ascari Race Resort, localizado na Espanha. O traçado reúne curvas inspiradas em pistas lendárias ao redor do mundo e foi utilizado intensamente no desenvolvimento do KZ1 - um luxo raro até mesmo entre grandes fabricantes.