ASTON MARTIN DB5 RADFORD SHOOTING BRAKE (1966): O GRAND TOURER QUE VIROU UMA OBRA-PRIMA UTILITÁRIA
Poucos automóveis conseguem reunir elegância, exclusividade e praticidade de forma tão singular quanto o Aston Martin DB5 Radford Shooting Brake de 1966. Nascido da combinação entre um dos mais célebres grand tourers britânicos de todos os tempos e a tradição inglesa dos chamados shooting brakes, esse modelo ocupa um lugar especial na história da Aston Martin. Raro, sofisticado e extremamente desejado pelos colecionadores atuais, ele representa uma faceta pouco conhecida de um automóvel eternizado nas telas de cinema e nas estradas do mundo.
A história começa com o lendário DB5. Lançado em 1963 como evolução do DB4, o modelo rapidamente se tornou o carro mais famoso da Aston Martin, especialmente após sua aparição no filme de James Bond, Goldfinger, de 1964. Equipado com um refinado motor de 6 cilindros em linha de 4.0 litros, o DB5 oferecia desempenho excepcional para a época, além de um nível de luxo comparável ao dos melhores automóveis europeus.
Mas foi um pedido muito particular que deu origem ao Shooting Brake. Entre os proprietários de Aston Martin encontrava-se ninguém menos que Sir David Brown, o industrial que havia adquirido a marca em 1947 e cujas iniciais batizavam os modelos DB. Brown era um entusiasta da caça e dos esportes ao ar livre. Embora apreciasse seu DB5 convencional, desejava mais espaço para transportar cães, equipamentos de caça e bagagens sem abrir mão do desempenho e da elegância do carro.
Para atender ao pedido, a Aston Martin recorreu à renomada Harold Radford & Co., uma empresa especializada em transformações de veículos de luxo. Radford já possuía excelente reputação por criar versões personalizadas de automóveis britânicos e aceitou o desafio de transformar o elegante coupé em um sofisticado shooting brake.
O resultado foi extraordinário. A transformação preservava a dianteira e a maior parte da carroceria original do DB5, mas substituía a seção traseira por uma estrutura alongada com teto elevado e ampla área envidraçada. O novo compartimento de carga era integrado de forma tão harmoniosa que parecia ter sido concebido desde o início pelos designers da Aston Martin.
O termo shooting brake possui raízes profundamente britânicas. Originalmente, designava carruagens utilizadas por aristocratas para transportar armas, cães e equipamentos durante caçadas. Com o surgimento do automóvel, o conceito evoluiu para veículos esportivos adaptados para oferecer maior capacidade de carga, mantendo ao mesmo tempo características de luxo e desempenho.
No caso do DB5 Radford, a execução foi exemplar. O amplo porta-malas permitia transportar bagagens volumosas sem comprometer a elegância do conjunto. O acesso era facilitado por uma grande tampa traseira, enquanto o interior continuava oferecendo acabamentos de alto padrão, com couro de qualidade excepcional, madeira nobre e instrumentos cuidadosamente montados à mão.
Sob o capô permanecia o famoso motor Aston Martin de 6 cilindros em linha e duplo comando de válvulas, com aproximadamente 282 cv de potência. Combinado a uma transmissão manual de 5 velocidades ZF, o conjunto permitia velocidades superiores a 230 km/h, números impressionantes para um automóvel com características tão versáteis.
A exclusividade era outro fator determinante. Apenas um número muito reduzido de exemplares foi produzido - as estimativas variam ligeiramente conforme as fontes, mas acredita-se que apenas cerca de doze unidades tenham sido construídas pela Radford durante a década de 1960. Isso torna o modelo significativamente mais raro que o já exclusivo DB5 convencional.
Além de Sir David Brown, outros clientes ilustres encomendaram exemplares. Entre eles estava o empresário e piloto amador Innes Ireland, conhecido por suas participações na Fórmula 1. Cada veículo podia receber personalizações específicas, reforçando ainda mais seu caráter artesanal.
O DB5 Radford Shooting Brake também acabou influenciando futuras interpretações do conceito dentro da própria Aston Martin. Décadas depois, a marca voltaria a produzir modelos com filosofia semelhante, como versões especiais do Virage e do Vanquish, mas nenhum deles alcançou o status quase mítico do original.
Hoje, o DB5 Radford Shooting Brake é considerado uma das variações mais fascinantes já criadas sobre um automóvel clássico. Sua combinação de raridade extrema, ligação direta com Sir David Brown e beleza singular faz dele uma das peças mais cobiçadas do colecionismo internacional. Em leilões especializados, exemplares restaurados costumam alcançar valores que rivalizam - e às vezes superam - os dos DB5 convencionais.
Como mencionado antes, o primeiro DB5 Shooting Brake foi construído especificamente para Sir David Brown. Conta-se que ele ficou tão satisfeito com o resultado que passou a utilizar o carro regularmente em suas propriedades rurais, transportando seus cães de caça. Assim, um dos automóveis mais elegantes da década de 1960 acabou desempenhando exatamente a função para a qual os antigos shooting brakes haviam sido criados mais de um século antes: unir luxo, desempenho e praticidade para a vida no campo.