ASTON MARTIN DBR9 (2006): O RETORNO DA ASTON MARTIN AO OLIMPO DE LE MANS
Poucos automóveis de competição conseguiram traduzir tão bem a personalidade de um fabricante de automóveis de luxo em uma máquina de corrida quanto o Aston Martin DBR9. Apresentado em 2004 e desenvolvido pela Aston Martin Racing em parceria com a britânica Prodrive, o DBR9 nasceu diretamente do DB9, mas praticamente tudo aquilo que fazia dele um Gran Turismo de estrada foi reinterpretado para enfrentar as pistas. Seu nome também carregava uma referência histórica: o ‘DBR’ evocava o lendário DBR1, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1959 e um dos maiores símbolos esportivos da marca.
A transformação do DB9 em um carro de competição foi profunda. O chassi de alumínio foi amplamente modificado, recebeu subchassi traseiro desenvolvido pela Prodrive, estrutura tubular de proteção e uma carroceria composta predominantemente por fibra de carbono, mantendo o teto de alumínio. Vidros de policarbonato, assoalho completamente plano, difusor traseiro, enorme aerofólio e splitter dianteiro passaram a trabalhar juntos para produzir a força aerodinâmica necessária às corridas de endurance. A suspensão independente por braços duplos foi endurecida e rebaixada, enquanto os freios Brembo utilizavam pinças de seis pistões e discos de carbono. Com isso, um automóvel que na versão de rua pesava cerca de 1.700 kg transformava-se em uma máquina de aproximadamente 1.100 kg em configuração de competição.
No centro dessa transformação estava o extraordinário V12 aspirado de 5.935 cm³, derivado do motor utilizado pelo DB9. Para atender às regulamentações da categoria GT1, bloco e cabeçotes permaneciam relacionados ao propulsor de produção, mas o restante da mecânica recebia preparação específica para competição. Com dois restritores de ar de 31.2 mm, o motor desenvolvia aproximadamente 600 cv a 6.500 rpm e torque na casa dos 700 Nm, dependendo da especificação adotada. A força era enviada às rodas traseiras por uma transmissão sequencial Xtrac de 6 velocidades, instalada na traseira para favorecer a distribuição de massas.
O resultado era brutal. O DBR9 podia acelerar de 0 a 96 km/h em aproximadamente 3.4 segundos e alcançar cerca de 305 km/h em configuração de corrida, enquanto a enorme capacidade de frenagem e a aerodinâmica permitiam que o Aston Martin mantivesse velocidades elevadíssimas durante longos períodos. Em Le Mans, onde eficiência aerodinâmica, estabilidade e confiabilidade são tão importantes quanto potência pura, essa combinação seria decisiva.
A estreia competitiva aconteceu em 2005, nas 12 Horas de Sebring, onde o DBR9 conquistou a vitória em sua categoria. Poucos meses depois, a Aston Martin voltou a Le Mans, e o novo GT britânico terminou em terceiro lugar na categoria GT1, demonstrando que a marca havia retornado ao endurance internacional com um projeto genuinamente competitivo. O programa ganhou força rapidamente e passou a enfrentar adversários de enorme calibre, como Ferrari, Maserati e Corvette.
Em 2006, o DBR9 já estava plenamente estabelecido. Naquele ano, a Aston Martin conquistou o título de construtores da FIA GT, enquanto a Aston Martin Racing Larbre Competition venceu a Le Mans Series. Em Le Mans, entretanto, a corrida não terminaria com a vitória esperada: o DBR9 número 007 terminou em décimo na classificação geral e quinto na categoria, enquanto o carro número 009, chassis DBR9/2, completou 342 voltas e percorreu 4.668 quilômetros.
Mas o melhor ainda estava por vir. Em 2007, dois DBR9 oficiais vestidos com as tradicionais cores azul e laranja da Gulf conquistaram a vitória na categoria GT1 das 24 Horas de Le Mans, com David Brabham, Darren Turner e Antonio García conduzindo o exemplar vencedor. Era um triunfo particularmente simbólico: quase meio século depois da histórica vitória do DBR1, outro Aston Martin com o nome ‘DBR’ voltava a subir ao degrau mais alto do pódio em La Sarthe.
A carreira do DBR9 se estenderia muito além daquela vitória. O modelo conquistaria 24 vitórias de classe em competições internacionais e continuaria ativo com equipes privadas até o início da década seguinte. Em 2010, os DBR9 ainda disputaram a recém-criada FIA GT1 World Championship, enfrentando Maserati MC12 e Ford GT, enquanto em 2011 a Hexis Racing conquistou o campeonato mundial de equipes com o modelo.
O DBR9 de 2006 representa, portanto, um momento particularmente importante na história moderna da Aston Martin. Era um automóvel que preservava a identidade mecânica do DB9, mas levava sua arquitetura ao extremo: mais de meia tonelada retirada, carroceria de carbono, aerodinâmica de competição, freios de carbono, câmbio sequencial e um V12 de quase seis litros berrando atrás da linha de largada. Se o DB4 GT de 1961 simbolizava a época em que um Gran Turismo britânico podia ser transformado em carro de corrida com relativa simplicidade, o DBR9 mostrava, quatro décadas e meia depois, como essa mesma filosofia havia evoluído para a sofisticada engenharia das competições de endurance do século XXI. E, em Le Mans, o sobrenome DBR provaria novamente que ainda carregava peso histórico suficiente para fazer a Aston Martin voltar a sonhar com a vitória.