BENZ VEDRINE SPORTING TOURER (1909): QUANDO MANNHEIM ENCONTROU PARIS
Em 1909, o automóvel ainda vivia uma época em que a personalidade de um carro podia nascer da combinação entre diferentes especialistas. O fabricante fornecia o chassi, o motor e os principais componentes mecânicos; o proprietário, por sua vez, podia escolher uma carroceria construída especialmente para suas necessidades e seu gosto. Foi dentro desse universo artesanal que surgiram automóveis como o Benz Vedrine Sporting Tourer, uma elegante interpretação de um chassi Benz equipado com carroceria da A. Vedrine & Cie., de Courbevoie, nos arredores de Paris. É importante esclarecer que ‘Vedrine Sporting Tourer’ não parece ter sido uma denominação oficial de catálogo da Benz, mas uma maneira contemporânea de identificar um automóvel Benz equipado com uma carroceria esportiva/touring construída pela tradicional casa francesa. A escolha do nome é, entretanto, perfeitamente coerente com a realidade da época, quando carrocerias especiais eram parte essencial da indústria automobilística.
A história começa em Mannheim, onde a Benz & Cie., Rheinische Gasmotoren-Fabrik Aktiengesellschaft produzia uma das mais respeitadas famílias de automóveis da Europa. Fundada por Carl Benz, a empresa havia evoluído de suas primeiras experiências com o Patent-Motorwagen para um grande fabricante, capaz de oferecer uma ampla variedade de automóveis destinados tanto ao uso cotidiano quanto ao turismo de longa distância e ao esporte. O catálogo Benz de 1909 preservado pela New York Public Library revela uma gama que incluía modelos de 4 cilindros de 18, 28, 40, 50 e 60 cv, além de diferentes configurações de carroceria, desde pequenos automóveis e limusines até double phaetons e versões esportivas.
Nesse contexto, um chassi Benz podia ganhar uma segunda personalidade quando chegava às mãos de um grande carrossier. E poucos eram tão interessantes quanto A. Vedrine & Cie. Paul-Auguste Vedrine havia fundado sua primeira empresa ligada à fabricação de ‘caixas’ e acessórios para automóveis em 1899 e, em 1903, assumiu o controle do negócio, que passou a operar como A. Vedrine et Cie. Sua grande fábrica no 7 quai de Seine, em Courbevoie, chegou a ocupar cerca de 10.000 m² e empregar aproximadamente 500 trabalhadores. A empresa construía carrocerias de madeira e metal para fabricantes como Panhard & Levassor, Hotchkiss e Darracq, além de produzir trabalhos especiais para clientes particulares.
A presença de Vedrine no mundo automobilístico também tinha uma dimensão esportiva. O empresário era apaixonado por competições e, em 1904, chegou a pilotar o Mercedes IV, um poderoso barco de competição equipado com motor Mercedes de 90 cv, vencendo provas entre Calais e Dover e de Paris ao mar. A experiência com construção leve, madeira, formas aerodinâmicas e competição ajudaria a explicar o caráter particularmente elegante das carrocerias que saíam de suas oficinas. Poucos anos depois, Vedrine também entraria na construção naval, numa expansão empresarial impressionante, embora curta: em 1909, uma crise financeira levaria a companhia à liquidação.
É nesse cenário que devemos imaginar o Benz Vedrine Sporting Tourer. Em vez das carrocerias fechadas e formais destinadas à elite urbana, o conceito sporting tourer privilegiava uma silhueta aberta, longa e elegante, adequada aos grandes deslocamentos que começavam a fazer parte da cultura automobilística europeia. O capô comprido denunciava o motor dianteiro, enquanto a posição mais recuada do habitáculo proporcionava ao automóvel as proporções que se tornariam características dos grandes tourers da década seguinte. A carroceria podia receber bancos para vários ocupantes, para-brisa vertical, estribos laterais e uma capota de lona destinada mais à proteção contra intempéries do que à criação de um habitáculo fechado. Em um exemplar preservado, a combinação de carroceria azul e capota cinza evidencia justamente esse espírito aristocrático e esportivo.
A mecânica, naturalmente, dependia do chassi Benz utilizado. Não devemos atribuir automaticamente ao Vedrine uma única motorização, pois o catálogo de 1909 mostrava uma gama bastante diversificada. Entre os modelos daquele ano estavam o pequeno quatro-cilindros de 18 cv, o 28 cv, o 40 cv, além dos maiores quatro-cilindros de 50 e 60 cv, alguns deles disponíveis com transmissão por corrente e outros com eixo traseiro motriz. O catálogo demonstra ainda que a Benz oferecia diferentes configurações de carroceria sobre seus chassis, o que reforça a possibilidade de um automóvel especialmente encarroçado por Védrine ter recebido especificações próprias.
Mais do que potência ou velocidade máxima, o verdadeiro encanto desse tipo de automóvel estava na maneira como ele reunia duas culturas industriais. A Benz representava a engenharia alemã, baseada em motores robustos, soluções mecânicas cuidadosamente desenvolvidas e uma experiência acumulada desde os primórdios do automóvel. A Vedrine representava a tradição francesa da carroceria, na qual o automóvel era também objeto de desenho, acabamento e expressão individual. O resultado era um veículo que não precisava seguir exatamente o padrão de uma linha de montagem: cada carroceria podia adquirir proporções, acabamentos e equipamentos próprios.
Essa característica ajuda também a compreender por que um exemplar desse tipo poderia atravessar fronteiras e terminar muito longe de sua origem. Um Benz equipado com carroceria Vedrine podia ser vendido a um cliente internacional como um automóvel de luxo praticamente sob encomenda. No caso do exemplar que aparece nas imagens, existem ainda as fascinantes evidências de sua passagem pela Argentina, incluindo uma matrícula de Buenos Aires registrada em 1914, a placa do motor identificando a unidade Benz e a identificação de Otto Franke & Co., Ingenieros y Constructores. Esses elementos contam a história particular de um automóvel que nasceu em uma Europa ainda dominada pelas grandes casas de carroceria e acabou encontrando uma nova vida do outro lado do Atlântico. Não devemos, entretanto, transferir automaticamente todos esses dados para cada Benz Vedrine de 1909.
Existe ainda uma razão histórica especial para apreciarmos esse automóvel. Ele pertence a um momento de transição. A Benz já era uma empresa industrial de grande porte, mas o conceito moderno de produção padronizada ainda estava longe de dominar completamente o mercado europeu. O automóvel continuava sendo, em muitos aspectos, uma máquina construída em torno do proprietário. A carroceria podia ser escolhida separadamente, o interior podia receber acabamentos especiais e diferentes fabricantes podiam participar de um mesmo projeto. O Benz Vedrine Sporting Tourer é, portanto, uma expressão perfeita desse período em que o automóvel ainda estava entre o produto industrial e a obra artesanal.
E havia uma ironia no calendário. Justamente em 1909, quando um Benz com uma elegante carroceria Vedrine poderia representar o futuro do automóvel de luxo, a própria A. Vedrine & Cie. começava a desaparecer. Depois de uma expansão extraordinariamente rápida, a companhia entrou em crise e encerrou suas atividades naquele mesmo ano. Pouco depois, a indústria caminharia cada vez mais para a padronização, para volumes maiores de produção e para carrocerias cada vez mais integradas aos fabricantes. O mundo que havia permitido a existência de um Benz construído em Mannheim e vestido em Paris estava, lentamente, chegando ao fim.
Por isso, o Benz Vedrine Sporting Tourer de 1909 merece ser lembrado não apenas como um antigo automóvel alemão, mas como um testemunho de uma época em que o carro era concebido como uma combinação de engenharia e artesanato. Seu motor vinha de Mannheim; sua elegância podia nascer em Courbevoie; seu proprietário podia estar em qualquer parte do mundo. E, ao contrário dos automóveis modernos, em que fabricante, carroceria e identidade comercial são inseparáveis, esse Benz pertencia a um tempo em que ainda era perfeitamente natural dizer que o chassi era de uma empresa, a carroceria de outra e a personalidade do automóvel, sobretudo, de seu proprietário.