BERTONE NUCCIO: CEM ANOS DE OUSADIA CONDENSADOS EM FORMA E LUZ
Em 2012, o estúdio Bertone completava 100 anos de história, um século marcado por algumas das carrocerias mais belas, influentes e corajosas do design automotivo mundial. Para celebrar a data, a casa de Turin decidiu olhar menos para a nostalgia literal e mais para sua própria essência criativa. O resultado foi o Bertone Nuccio, apresentado ao mundo no Salão de Genebra de 2012.
Batizado em homenagem a Nuccio Bertone, o homem que transformou o ateliê fundado por seu pai, Giovanni, em um dos nomes mais reverenciados do design automotivo, o conceito não pretendia ser um simples exercício estético. O Nuccio era um manifesto, uma declaração clara de que a Bertone ainda sabia provocar, romper padrões e questionar convenções.
Visualmente, o Nuccio chocava e fascinava na mesma medida. Suas linhas eram angulares, tensas e futuristas, mas carregavam ecos claros do passado - especialmente do icônico Lancia Stratos Zero, conceito de 1970 que redefiniu o vocabulário do design em forma de cunha. No Nuccio, essa herança surgia reinterpretada: superfícies geométricas, volumes marcados, faróis integrados quase como esculturas e uma silhueta que parecia esculpida pelo vento e pela luz.
O interior seguia a mesma filosofia experimental. Minimalista, envolvente e deliberadamente conceitual, colocava o condutor no centro da experiência, quase como em um cockpit. Cada elemento parecia pensado mais como linguagem visual do que como solução de produção em série - reforçando que o Nuccio não era um carro para as ruas, mas para provocar reflexão.
Tecnicamente, o Bertone Nuccio utilizava uma base mecânica moderna, derivada de um superesportivo contemporâneo, com motor V8 montado em posição central, garantindo que, apesar do discurso conceitual, o desempenho estivesse à altura da agressividade visual. Ainda assim, o foco nunca foi a ficha técnica, e sim a mensagem.
Essa mensagem ganhava um peso especial quando se considera o contexto histórico. Em 2012, a Bertone enfrentava um período delicado, distante dos tempos áureos em que assinava obras-primas para Alfa Romeo, Lamborghini, Lancia e tantas outras. O Nuccio surgia, portanto, como um grito criativo - um lembrete de que o verdadeiro valor da Bertone sempre esteve na coragem de arriscar.
Pouco tempo após a apresentação do Nuccio, a Bertone encerraria suas atividades como estúdio de design automotivo independente. Assim, o Nuccio acabou se tornando, simbolicamente, o último grande conceito assinado pela Bertone, uma despedida silenciosa, porém poderosa, de uma casa que ajudou a moldar o design automotivo do século XX - e ousou apontar caminhos para o XXI.