BMW M635CSi COUPÉ (1986): O TUBARÃO QUE LEVOU O DNA DO M1 ÀS ESTRADAS
Poucos automóveis representam tão bem a exuberância técnica da BMW dos anos 1980 quanto o M635CSi Coupé de 1986. Derivado do elegante Série 6 E24, o modelo transformou um sofisticado grand tourer de quatro lugares em uma máquina de alto desempenho ao receber nada menos que o motor desenvolvido pela BMW Motorsport a partir do propulsor do lendário BMW M1. Apresentado em 1984 como o novo topo da família E24, o M635CSi tornou-se o primeiro grande coupé de luxo desenvolvido pela divisão Motorsport e estabeleceu uma fórmula que permaneceria fundamental para os futuros BMW M: combinar desempenho de carro esportivo, comportamento dinâmico e conforto para viagens de longa distância. Sua produção se estendeu de abril de 1984 a fevereiro de 1989, com apenas 5.855 exemplares construídos, tornando-o hoje um dos BMW M clássicos mais cobiçados.
A base era o E24, o elegante coupé desenhado originalmente por Paul Bracq e lançado na década anterior, mas a transformação promovida pela BMW Motorsport foi muito mais profunda do que simplesmente instalar um motor mais potente. Sob o longo capô estava o M88/3, um bloco de 6 cilindros em linha de 3.453 cm³, com duplo comando de válvulas no cabeçote, 24 válvulas e seis corpos de borboleta individuais. O propulsor derivava diretamente do M88 utilizado no M1, embora tivesse sido adaptado à instalação dianteira inclinada do E24. A taxa de compressão foi elevada para 10.5:1 e o conjunto desenvolvia 286 cv a 6.500 rpm e 340 Nm a 4.500 rpm, números extraordinários para a época. A BMW ainda fazia questão de deixar claro que aquele não era simplesmente um 635CSi mais potente: tratava-se de um verdadeiro produto Motorsport.
A ligação com o M1 dava ao M635CSi uma personalidade mecânica especial. Em vez de um grande V8 ou de um seis-cilindros turboalimentado, a BMW apostava em um motor atmosférico de alta rotação, capaz de entregar potência de maneira progressiva e acompanhado por aquela característica sonoridade metálica dos seis-em-linha da marca. Toda a força chegava às rodas traseiras através de uma transmissão manual Getrag de 5 velocidades, enquanto um diferencial autoblocante ajudava a transformar os 340 Nm em aceleração efetiva. A suspensão também recebeu modificações específicas, com componentes reforçados, amortecedores mais firmes e barras estabilizadoras recalibradas, além de uma altura de rodagem aproximadamente 10 mm menor.
O resultado era um automóvel que podia ser extremamente rápido sem abandonar a vocação de grand tourer. O M635CSi alcançava 100 km/h em aproximadamente 6.4 segundos e podia chegar a 255 km/h, cifras que o colocavam entre os BMW mais rápidos produzidos em série naquele período. Com cerca de 1.500 kg, quatro lugares e uma carroceria de quase 4.76 metros de comprimento, ele não era um esportivo compacto, mas justamente um coupé de alta velocidade concebido para atravessar grandes distâncias com enorme competência. A distribuição de massas, próxima de 54% na dianteira e 46% na traseira, ajudava a preservar o equilíbrio característico dos BMW de tração traseira.
Visualmente, a receita era de uma discrição calculada. O famoso ‘Sharknose’, ou nariz de tubarão, do E24 permanecia intacto, mas o M635CSi recebia um spoiler dianteiro mais pronunciado, spoiler traseiro, espelhos externos na cor da carroceria e rodas de desenho cruzado. As rodas BBS, especialmente nas configurações mais largas, tornaram-se uma de suas assinaturas mais reconhecíveis. A carroceria baixa, o capô comprido, a cabine recuada e a linha de cintura elegantemente arqueada produziam uma silhueta que ainda hoje parece equilibrar perfeitamente agressividade e elegância. No interior, bancos esportivos e volante de couro faziam companhia a um quadro de instrumentos cujo velocímetro chegava a 280 km/h e o conta-giros a 8.000 rpm, com a faixa vermelha começando em torno de 6.900 rpm.
O ano de 1986 é particularmente interessante porque marcou uma fase de transição para o M635CSi. A partir daquele período surgiram versões equipadas com catalisador e o motor S38B35, de menor compressão e potência reduzida para aproximadamente 260 cv, destinadas sobretudo aos mercados que exigiam sistemas de controle de emissões mais rigorosos. Entretanto, o exemplar europeu não catalisado que preservava o M88/3 continuava oferecendo os desejados 286 cv. A própria BMW registra que a versão catalisada acabou sendo incorporada à linha posteriormente, enquanto os primeiros M635CSi permanecem especialmente valorizados pelos colecionadores justamente por sua configuração original de alto desempenho.
Havia, portanto, uma razão para o M635CSi ter adquirido uma reputação quase mítica entre os entusiastas. Ele reunia duas personalidades aparentemente contraditórias: durante uma viagem, podia comportar-se como um refinado coupé de luxo, silencioso e confortável; quando o condutor explorava as rotações superiores do M88/3, transformava-se em uma máquina de desempenho genuinamente Motorsport. Mais do que isso, carregava consigo uma herança direta das pistas e do BMW M1, fazendo do E24 uma espécie de elo entre o primeiro supercarro da BMW e a futura geração de modelos M que dominaria as décadas seguintes.
O BMW M635CSi Coupé 1986 é, por isso, muito mais do que uma versão esportiva do Série 6. Ele representa um momento em que a BMW ainda podia aplicar tecnologia de competição a um automóvel de produção sem filtros eletrônicos complexos, sem turbocompressor e sem a necessidade de números extravagantes para demonstrar sua capacidade. Bastavam 6 cilindros, 3.5 litros, 24 válvulas, tração traseira e 286 cv. O resultado foi um dos mais completos e fascinantes grand tourers europeus dos anos 1980 - um automóvel em que a elegância do E24 encontrou, sob o capô, o coração de um M1.