BUGATTI TYPE 101C-X (1965): O ÚLTIMO VERDADEIRO BUGATTI DE MOLSHEIM RENASCE COMO UMA OBRA DE ARTE SOBRE RODAS
Quando Ettore Bugatti faleceu, em 1947, parecia que um dos capítulos mais gloriosos da história do automóvel havia chegado definitivamente ao fim. A lendária fábrica de Molsheim, profundamente castigada pela Segunda Guerra Mundial, jamais recuperaria o brilho que a transformara em sinônimo de excelência técnica e elegância mecânica durante as décadas de 1920 e 1930. Ainda assim, alguns poucos homens se recusaram a aceitar que o nome Bugatti desaparecesse silenciosamente. O resultado desse esforço foi o Bugatti Type 101, o derradeiro automóvel desenvolvido sob a administração da família Bugatti e, em sua expressão máxima, o extraordinário Type 101C-X de 1965 - um automóvel tão singular que muitos o consideram o último ‘verdadeiro’ Bugatti construído em Molsheim.
O exemplar atualmente oferecido pela Hyman Ltd., identificado pelo chassi 101506, possui uma importância histórica difícil de igualar. Ele não é apenas um dos raríssimos sete chassis Type 101 produzidos, mas o último deles, equipado desde a origem com o desejado motor sobrealimentado e mantido pela própria Bugatti até 1961, quando deixou definitivamente a fábrica. Durante décadas permaneceu praticamente desconhecido do público, aguardando silenciosamente a oportunidade de ganhar uma carroceria digna de sua linhagem.
O Type 101 representava a tentativa da Bugatti de retornar ao mercado de automóveis de luxo no início da década de 1950. Embora utilizasse como base o consagrado Type 57, concebido por Jean Bugatti antes da guerra, recebia diversas atualizações importantes. O tradicional motor de 8 cilindros em linha com 3.3 litros, duplo comando de válvulas no cabeçote e construção refinadíssima permanecia como o coração do projeto. Na versão superalimentada, graças ao compressor mecânico e ao carburador Weber, sua potência chegava a aproximadamente 200 cv, tornando-o, na época, um dos automóveis europeus de rua mais potentes disponíveis. Também foram introduzidos freios hidráulicos Lockheed e outras melhorias destinadas a modernizar o conjunto, embora o chassi ainda conservasse a arquitetura clássica do Type 57.
Infelizmente, o mercado havia mudado profundamente após a guerra. Apesar da sofisticação mecânica, o Type 101 parecia excessivamente conservador diante de concorrentes cada vez mais modernos, e seu elevado preço limitou drasticamente as vendas. Apenas sete chassis foram produzidos, encerrando melancolicamente a produção da Bugatti em Molsheim. Entre eles, o chassi 101506 permaneceu sem carroceria durante quase uma década, tornando-se uma espécie de cápsula do tempo da história da marca.
A transformação desse chassi em um dos automóveis mais fascinantes dos anos 1960 começou graças ao jornalista e editor L. Scott Bailey, fundador da prestigiada revista Automobile Quarterly. Bailey sabia que o lendário designer americano Virgil Exner, recém-saído da Chrysler, trabalhava em sua célebre série ‘Revival Cars’, um conjunto de estudos imaginando como seriam algumas marcas históricas caso nunca tivessem deixado de existir. Entre elas estava justamente a Bugatti.
Ao descobrir que o chassi 101506 permanecia intacto e sem carroceria, Bailey imediatamente percebeu que aquela seria a plataforma perfeita para concretizar o projeto de Exner. Após adquirir o automóvel de seu proprietário, E. Allen Henderson, o chassi foi levado para os Estados Unidos, onde Virgil Exner e seu filho iniciaram um ambicioso trabalho de adaptação antes de enviar toda a documentação técnica para a Carrozzeria Ghia, em Turin, responsável por transformar os desenhos em realidade.
O resultado surgiu em 1965 sob a denominação Bugatti Type 101C-X. Embora baseado em um automóvel concebido ainda nos anos 1950, sua carroceria apresentava uma linguagem completamente contemporânea. A enorme grade em ferradura, marca registrada da Bugatti desde os tempos de Ettore, permanecia como protagonista, agora integrada a para-lamas pronunciados que avançavam elegantemente sobre a dianteira. Os faróis retangulares, bastante incomuns para um esportivo da época, conferiam personalidade própria ao conjunto, enquanto o para-brisa bipartido remetia às lanchas de competição dos anos 1930. A traseira afilada, inspirada no desenho de embarcações esportivas, encerrava a composição com uma elegância quase escultural, revelando uma interessante fusão entre tradição francesa, criatividade americana e refinamento italiano.
O interior seguia a mesma filosofia. Couro de alta qualidade, instrumentos clássicos distribuídos diante do condutor, acabamento artesanal e uma posição de condução baixa reforçavam o caráter de um verdadeiro gran turismo. Para acomodar a nova carroceria, o chassi original foi encurtado em aproximadamente 45 cm, enquanto o antigo câmbio eletromagnético Cotal deu lugar a uma transmissão manual convencional de 4 velocidades, solução considerada mais adequada ao novo projeto e ao caráter esportivo do automóvel.
Apresentado oficialmente no Salão de Turin de 1965, o Type 101C-X imediatamente despertou enorme curiosidade. Não era apenas um protótipo estilístico: tratava-se do último chassi Bugatti produzido pela família Bugatti, agora vestido com uma carroceria assinada por uma das mais respeitadas casas de estilo da Itália. Embora Virgil Exner sonhasse que o automóvel despertasse interesse suficiente para ressuscitar a marca em pequena escala, isso jamais aconteceu. O roadster permaneceu como exemplar único, encerrando simbolicamente a história da Bugatti clássica antes do renascimento promovido décadas mais tarde pelo italiano Romano Artioli e, posteriormente, pelo Grupo Volkswagen.
Sua trajetória posterior foi igualmente prestigiosa. Após ser conduzido pelo próprio Exner por cerca de 1.600 quilômetros, o carro passou por importantes colecionadores norte-americanos, entre eles Tom Barrett, cofundador da Barrett-Jackson, Bud Tushinsky, Harvey Ludwig, a célebre Blackhawk Collection e, finalmente, a Lyon Family Collection, onde permaneceu por mais de quarenta anos ao lado de outro tesouro absoluto: o Bugatti Type 10 ‘Le Petit Pur-Sang’, o primeiro automóvel completo projetado por Ettore Bugatti. Em 2022, retornou simbolicamente à França para integrar uma exposição especial no Musée National de l’Automobile - Collection Schlumpf, em Mulhouse, reunindo os sete chassis conhecidos do Type 101.
Outro aspecto que torna este automóvel ainda mais extraordinário é seu estado de conservação. Diferentemente da maioria dos grandes clássicos de sua geração, o Type 101C-X nunca passou por uma restauração completa. Segundo a Hyman Ltd., ele preserva praticamente toda a pintura aplicada pela Ghia em 1965, além do motor original, do compressor mecânico e da transmissão instalada durante sua construção, constituindo um raro exemplo de automóvel historicamente significativo mantido em condição amplamente original.
Mais do que um exercício de estilo ou um protótipo de salão, o Bugatti Type 101C-X representa o encontro improvável entre três gigantes da história do automóvel: a tradição mecânica da Bugatti, o talento criativo de Virgil Exner e a extraordinária capacidade artesanal da Carrozzeria Ghia. Único em sua configuração, último representante legítimo da linhagem iniciada por Ettore Bugatti em Molsheim e testemunha de uma tentativa apaixonada de manter viva uma das marcas mais admiradas do mundo, ele ocupa um lugar absolutamente singular na história do automóvel. Não é apenas um clássico raro; é um elo vivo entre a era dourada da Bugatti e o mito que continuaria a fascinar gerações de entusiastas muito depois do fechamento dos portões da lendária fábrica da Alsácia.