CENTURY TOURIST DOS-À-DOS (1902): QUANDO O AUTOMÓVEL AINDA ERA UMA CARRUAGEM COM MOTOR
No ano de 1902, o automóvel ainda não havia se libertado completamente de sua herança equestre. Para muitos fabricantes, o carro era visto como uma evolução direta da carruagem, agora impulsionada por um motor a explosão. O Century Tourist Dos-à-Dos nasce exatamente nesse ponto de transição - um veículo que mistura inovação mecânica com soluções claramente inspiradas no século XIX.
O termo ‘Dos-à-Dos’, de origem francesa, descreve com precisão o layout do carro: dois bancos montados costas com costas, uma configuração herdada das carruagens de passeio mais elegantes da virada do século. No Century Tourist, essa disposição permitia acomodar quatro ocupantes, dois voltados para a frente e dois para trás, criando uma experiência social e visual incomum aos olhos modernos, mas perfeitamente aceitável - e até sofisticada - em sua época.
Visualmente, o Tourist Dos-à-Dos é alto, esguio e quase delicado. As rodas de grande diâmetro, geralmente com raios de madeira, dominam o conjunto, enquanto o chassi estreito sustenta uma carroceria simples, aberta e sem portas. Não havia preocupação com aerodinâmica ou proteção contra o clima: dirigir era um evento, não uma rotina. Capotas, quando existiam, eram improvisadas e usadas apenas em caso de necessidade extrema.
Na parte dianteira, encontra-se o coração mecânico do veículo: um motor a gasolina de 2 cilindros, montado sob um compartimento ainda rudimentar, mais funcional do que estético. A potência era modesta, suficiente apenas para mover o conjunto com dignidade em estradas de terra ou paralelepípedo, geralmente a velocidades que hoje pareceriam quase simbólicas. A transmissão, como em muitos carros da época, fazia uso de correntes, e o controle do veículo exigia atenção constante do condutor.
O posto de condução era tão simples quanto o restante do carro. Nada de volante como o conhecemos hoje: em muitos exemplares, o comando de direção era feito por alavanca (tiller), reforçando a sensação de que o automóvel ainda buscava sua identidade própria. Instrumentação era mínima, limitada ao essencial para manter o motor em funcionamento.
O Century Tourist Dos-à-Dos era destinado a um público específico: clientes curiosos, abastados e dispostos a aceitar os desafios da nova tecnologia. Possuir um carro em 1902 era menos uma questão de conveniência e mais uma afirmação de modernidade e espírito pioneiro. Cada trajeto era uma pequena aventura mecânica, sujeita a imprevistos, ajustes manuais e olhares curiosos de quem ainda via o automóvel como uma excentricidade barulhenta.
Produzido em números muito reduzidos, como praticamente todos os automóveis americanos desse período, o Tourist Dos-à-Dos sobrevive hoje apenas em registros históricos e raríssimos exemplares preservados. Ele não representa um salto tecnológico decisivo, mas sim algo talvez mais importante: o entusiasmo de uma indústria nascente, ainda tateando soluções, formatos e conceitos.
O layout dos-à-dos desapareceu rapidamente do mundo automobilístico à medida que o carro passou a ser visto como um meio de transporte prático, e não apenas recreativo. Curiosamente, esse tipo de disposição de bancos sobreviveu por mais tempo em veículos turísticos e carruagens elétricas urbanas, antes de ser definitivamente abandonado em favor do interior voltado exclusivamente para a frente - como conhecemos hoje.