CHEETAH GT 1966: O FELINO INDOMÁVEL DE BILL THOMAS
Voltando aos Estados Unidos dos anos 1960, o ar quente da Califórnia parece carregar um cheiro peculiar de gasolina de alta octanagem e ambições ousadas. É a América dos grandes sonhos automotivos, onde pequenos construtores desafiam gigantes instalados - e onde um engenheiro determinado chamado Bill Thomas decide criar uma máquina capaz de encarar o Corvette e até mesmo o Shelby Cobra no próprio território deles. Nesse cenário turbulento e criativo nasce o Cheetah GT, uma criatura selvagem, de reflexos rápidos e temperamento feroz.
Thomas, experiente em preparar motores para a Chevrolet, tinha a ideia fixa de construir um coupé esportivo capaz de competir nas pistas de forma direta, sem rodeios. A GM não declarava oficialmente apoio - por razões políticas e regulamentares da época - mas fornecia motores e peças. O resultado dessa parceria não oficial foi um carro tão ousado quanto sua própria concepção.
O Cheetah GT de 1966 é daqueles esportivos que parecem ter sido moldados pela velocidade em pessoa. O chassi tubular leve, a carroceria de fibra de vidro e a distância mínima entre o enorme motor V8 e o condutor criavam uma posição de pilotagem quase simbiótica com a mecânica. Aliás, falar em ‘mecânica’ é modesto: com motores Chevrolet small-block de até 427 polegadas cúbicas, o felino era capaz de lançar-se com fúria, castigando pneus e assustando pilotos menos experientes. O torque parecia infinito, e a sensação de que a frente do carro flutuava não era uma figura de linguagem - era real.
O design é um capítulo à parte: baixíssimo, com proporções exageradas, quase alienígenas. Uma cabine pequena, instalada tão atrás que o motor parecia invadir o habitáculo, criava um visual quase de protótipo das 24 Horas de Le Mans. E, de certa forma, essa era a ambição - mas circunstâncias históricas impediram que o Cheetah brilhasse totalmente. Mudanças nas regras da FIA para homologação, atrasos de produção e um incêndio trágico na oficina de Thomas praticamente encerraram o sonho antes que ele pudesse amadurecer.
Mesmo assim, o Cheetah GT permanece um ícone dos ‘e se?’. E se tivesse sido produzido antes? E se a GM tivesse apoiado oficialmente? E se tivesse enfrentado o Cobra nas pistas em igualdade plena?
Hoje, esse felino automotivo é raríssimo, cobiçado e lembrado como um dos esportivos mais radicais da sua época - um carro que nasceu para ser veloz, ousado, talvez até indomável. Um ponto luminoso e breve na constelação da história automotiva americana.
Como uma curiosidade final, por causa da posição extrema do motor e do calor que ele gerava, pilotos relatavam que correr com o Cheetah era tão quente que alguns calçados literalmente derretiam durante provas mais longas. Um verdadeiro felino… capaz até de incendiar o asfalto.