CITROËN TRACTION AVANT 7B CABRIOLET (1934): A TRAÇÃO QUE MUDOU O RUMO E A OUSADIA QUE ABALOU PARIS
No alvorecer de 1934, enquanto o mundo ainda se recuperava da Grande Depressão e o automóvel lutava para se libertar de convenções centenárias, a Citroën lançou uma bomba técnica que ecoaria por décadas: o Traction Avant. E entre suas variantes mais desejadas e raras, o 7B Cabriolet - produzido a partir de junho daquele ano - representa o ápice da audácia francesa: o primeiro automóvel de grande série com tração dianteira, carroceria monocoque (autoportante) e suspensão independente nas quatro rodas.
Idealizado por André Citroën e concretizado pelo engenheiro André Lefèbvre (com contribuições da Budd Company americana no conceito da carroceria de aço), o Traction Avant nasceu para romper com o passado. O 7B, evolução rápida do inicial 7A (que durou apenas dois meses na linha), trouxe um motor de 4 cilindros em linha de 1.529 cm³, com comando de válvulas no cabeçote e cilindros ‘flutuantes’ de fácil manutenção. Os 35 cv a 3.200 rpm pareciam modestos, mas, aliados ao peso contido (cerca de 950-1.050 kg no cabriolet) e à distribuição de peso favorável da tração dianteira, permitiam atingir cerca de 100-105 km/h com uma estabilidade e uma dirigibilidade que deixavam os rivais de tração traseira com chassi de longarinas parecendo dinossauros.
O Cabriolet de 1934, com suas portas suicidas na frente, capota de lona retrátil, para-brisa rebatível e linhas longilíneas e elegantes desenhadas para cortar o vento, era o sonho de liberdade sobre rodas. Produzido em números extremamente limitados (os cabriolets e faux-cabriolets representavam fração mínima dos cerca de 760 mil Traction Avant totais fabricados até 1957), o modelo era encomendado por quem buscava não apenas luxo, mas inovação radical.
A suspensão dianteira por barras de torção e amortecedores (inicialmente de fricção, depois hidráulicos) e a pioneira cremalheira de direção (adotada em 1936, mas já pressentido nas evoluções iniciais) davam ao carro uma agilidade e um conforto que antecipavam em décadas o que viria a ser o padrão moderno.
Em 1934, o Traction Avant custava caro - cerca de 17 mil francos -, mas justificava cada centavo: era o primeiro carro de massa a unir tração dianteira, monocoque em aço e freios hidráulicos nas quatro rodas. O 7B Cabriolet, um dos primeiros exemplares saídos das linhas em meados do ano, simboliza o momento em que a Citroën não apenas seguiu a tecnologia - ela a reinventou.
Quase um século depois, restaurar ou contemplar um Citroën Traction Avant 7B Cabriolet de 1934 é reviver o instante em que um engenheiro visionário decidiu que o futuro não viria de trás, mas sim da frente. Um clássico que não é apenas bonito: é profético. A rainha da estrada nasceu ali, em 1934, e nunca mais deixou de reinar.