CONSULIER GTP (1988): O IMPROVÁVEL SUPERCARRO AMERICANO QUE ABRIU O CAMINHO PARA A MOSLER AUTOMOTIVE
No final dos anos 1980, quando Ferrari, Porsche, Lamborghini e outras marcas tradicionais dominavam o imaginário dos superesportivos, surgiu na Flórida um automóvel que seguia uma filosofia completamente diferente. Era o Consulier GTP, primeiro automóvel desenvolvido por Warren Mosler, um projeto iniciado em 1985 e que chegou efetivamente aos primeiros clientes em 1988. Mosler, que posteriormente daria seu nome ao fabricante que se tornaria conhecido como Mosler Automotive, acreditava que um esportivo poderia alcançar desempenho de alto nível sem recorrer a uma estrutura metálica convencional. Sua resposta foi um automóvel compacto de motor central-traseiro, tração traseira e monocoque construído em materiais compósitos, concebido para reduzir drasticamente o peso. A Consulier Industries foi organizada na Flórida em 1985, e os documentos federais americanos registram que o programa GTP permaneceu em desenvolvimento e pesquisa durante os anos seguintes; a primeira unidade foi entregue em 1988.
A aparência do GTP também refletia essa busca obsessiva pela eficiência. A carroceria de duas portas apresentava perfil baixo, cabine recuada, grandes superfícies laterais e uma traseira compacta, enquanto a estrutura era formada por um monocoque de espuma e materiais compósitos, sem a tradicional estrutura metálica incorporada à carroceria. A solução era extremamente avançada para um fabricante de produção limitada e proporcionava uma massa em torno de 998 kg, valor extraordinariamente baixo para um esportivo de motor turbo da segunda metade dos anos 1980. A arquitetura utilizava entre-eixos de aproximadamente 2.54 metros, comprimento de 4.37 metros e largura de 1.83 metro, proporções que conferiam ao carro uma postura bastante agressiva. O objetivo de Mosler não era simplesmente construir um automóvel exótico, mas demonstrar que a redução de massa poderia ser tão importante quanto o aumento da potência.
Para o conjunto mecânico, Mosler recorreu ao conhecido quatro-cilindros Chrysler 2.2 Turbo II, uma escolha aparentemente modesta diante dos motores V8 e V12 empregados pelos grandes fabricantes, mas extremamente coerente com sua filosofia. Na primeira série, o propulsor desenvolvia aproximadamente 175 cv, enquanto versões posteriores utilizaram o Turbo III, com cerca de 190 cv. O motor era instalado transversalmente na região central-traseira e associado a uma transmissão manual de 5 velocidades. Com aproximadamente uma tonelada de peso, mesmo os 175 cv da primeira série proporcionavam uma relação peso/potência próxima de 5.7 kg/cv, suficiente para transformar o pequeno Consulier em um esportivo muito rápido. A evolução para o Turbo III e outras preparações aumentaria ainda mais seu potencial.
A obsessão de Mosler pela leveza não ficou restrita às especificações de fábrica e rapidamente foi colocada à prova nas pistas. O Consulier GTP participou de competições da IMSA e encontrou uma vantagem particularmente significativa justamente onde sua filosofia fazia mais diferença: na relação entre potência e peso. Em 1991, quatro exemplares da Série II estrearam em Lime Rock com o motor 2.2 turbo e aproximadamente 195 cv, pesando somente cerca de 950 kg. Um deles conquistou a pole position e venceu a prova de ponta a ponta, superando carros muito mais potentes, porém substancialmente mais pesados, incluindo Porsche e Corvette de equipes de fábrica. A resposta da IMSA foi a imposição de um lastro adicional de 300 libras, cerca de 136 kg, e posteriormente o banimento do modelo da categoria.
A passagem do GTP pelas competições acabaria fortalecendo ainda mais a imagem do carro como uma espécie de underdog tecnológico. Warren Mosler chegou a oferecer US$ 25 mil a quem conseguisse conduzir um automóvel de produção homologado para as ruas em um circuito americano mais rápido que o Consulier. A provocação chamou a atenção da Car and Driver, que colocou um GTP Series I de 1988 frente a um Corvette C4 em 1991. No teste realizado no circuito de Chelsea, Michigan, o Corvette registrou 1min21s01, contra 1min22s56 do Consulier. Mosler contestou o resultado, argumentando que o GTP utilizado estava bastante desgastado, com pneus e pastilhas de freio usados e interior removido. O episódio tornou-se parte importante da personalidade pública do projeto e contribuiu para a reputação controversa do pequeno esportivo.
O interior também podia assumir duas personalidades. A versão GTP Sport procurava concentrar-se no essencial, enquanto a GTP LX oferecia uma quantidade surpreendente de equipamentos para um carro tão radical, incluindo bancos Recaro, instrumentos VDO, rodas Fittipaldi, sistema de áudio Alpine, teto solar, revestimento de couro, ar-condicionado, controle de velocidade, vidros e travas elétricos e carpete de lã. Dessa maneira, o GTP podia ser configurado tanto como uma máquina extremamente focada quanto como um pequeno GT de luxo, embora sua estrutura e seu comportamento permanecessem muito mais próximos de um carro de competição adaptado às ruas do que de um confortável gran-turismo convencional.
A produção permaneceu extremamente limitada. Estimativas variam, mas as fontes apontam para algo entre 60 e 100 Consulier GTP, enquanto algumas referências específicas trabalham com aproximadamente 83 exemplares. Além da produção reduzida, a própria documentação federal americana revela o tamanho artesanal da operação: em 1990, por exemplo, a empresa havia produzido apenas algumas dezenas de unidades e ainda enfrentava dificuldades para atender às exigências federais relacionadas aos sistemas de retenção. Em março daquele ano, a divisão automobilística foi vendida a Warren Mosler, e a Consulier Industries mudou sua denominação corporativa para Consulier Engineering, permanecendo Mosler como fabricante do GTP.
A verdadeira importância do GTP, entretanto, vai além de suas poucas unidades produzidas. Em 1993, a divisão automobilística da Consulier foi transformada em Mosler Automotive, abrindo um novo capítulo que levaria ao Mosler Intruder e posteriormente ao Raptor. O Intruder manteve a ideia fundamental do monocoque leve, mas recebeu carroceria revista e um V8 Chevrolet LT1 de 5.7 litros, elevando drasticamente o desempenho. Alguns anos mais tarde, a Mosler desenvolveria o MT900, um projeto completamente novo e ainda mais sofisticado, mas cuja filosofia - reduzir massa e buscar desempenho através de uma arquitetura leve - já estava presente no primeiro Consulier.
O Consulier GTP de 1988 merece, portanto, um lugar especial na história dos esportivos americanos. Ele foi o primeiro grande exercício de Warren Mosler no setor automobilístico e demonstrou, desde o início, a característica que acompanharia todos os seus projetos posteriores: a tentativa de conseguir desempenho extraordinário por meio da engenharia e da redução de peso, em vez de simplesmente aumentar cilindrada e potência. Seu pequeno quatro-cilindros Chrysler, o monocoque compósito e a produção artesanal poderiam parecer escolhas pouco convencionais diante dos supercarros europeus da época, mas juntos criaram um automóvel tecnicamente singular. Mais importante ainda, o GTP foi a semente da própria Mosler Automotive e o primeiro capítulo de uma trajetória que terminaria décadas depois com o MT900.