DUAL-GHIA CONVERTIBLE (1957): A MISTURA DO GLAMOUR AMERICANO COM A SOFISTICAÇÃO EUROPEIA
A Dual Motors Corporation, fabricante americano sediado em Detroit, Michigan, marcou a história automotiva dos Estados Unidos com uma breve, mas marcante, incursão no segmento de carros de luxo e esportivos exclusivos durante a década de 1950.
Fundada pelo empreendedor Eugene Casaroll, a empresa surgiu inicialmente como uma especialista em veículos pesados e equipamentos militares. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Dual Motors destacou-se pela produção de caminhões e transportadores de tanques com configuração de motores duplos - o que inspirou o próprio nome da companhia. Após o conflito, Casaroll diversificou os negócios e canalizou sua paixão por automóveis para um projeto ambicioso: criar um conversível de luxo que combinasse robustez americana com o requinte da carroceria artesanal italiana.
O grande legado da Dual Motors Corporation foi o Dual-Ghia (ou Dual-Ghia Convertible), lançado entre 1956 e 1958. O modelo nasceu da compra dos direitos de design dos concept cars Dodge Firearrow/Firebomb - criados pelo estilista Virgil Exner e construídos pela italiana Carrozzeria Ghia -, que a Chrysler havia abandonado por questões orçamentárias.
O processo de fabricação era singular e ganhou o apelido de “a linha de montagem mais longa do mundo”: chassi e mecânica Dodge (incluindo o potente V8 Hemi de 5.2 litros ou, em alguns exemplares de 1957, o 5.9 litros D-500 com duplo carburador) eram enviados de Detroit para Turin, na Itália. Lá, a Ghia moldava à mão carrocerias de aço com linhas elegantes, proporções longas, para-lamas sutis e um estilo que misturava glamour americano com sofisticação europeia. Os veículos semi-prontos retornavam aos Estados Unidos, onde a Dual Motors finalizava montagem, acabamento e testes.
Com preço na casa dos 7.600 dólares (equivalente a cerca de 85.000-90.000 dólares em valores atuais), o Dual-Ghia posicionava-se acima de um Cadillac Eldorado e competia com os mais exclusivos da época. Seu desempenho era notável para um carro de passeio: aceleração vigorosa e dirigibilidade condizente com o motor Chrysler de alto torque. O público-alvo eram celebridades e magnatas; Frank Sinatra, Dean Martin e outras estrelas de Hollywood tornaram-se donos famosos, consolidando o modelo como um ícone de status na Costa Oeste.
Apesar do sucesso de crítica e da exclusividade - apenas 117 unidades foram produzidas -, os elevados custos de produção artesanal tornaram o projeto inviável financeiramente. A Dual Motors encerrou a fabricação do Dual-Ghia em 1958 e, pouco depois, deixou de atuar como montadora de automóveis de passageiros. Casaroll faleceu alguns anos mais tarde e a empresa voltou a focar em atividades industriais e de transporte.
Hoje, os raros Dual-Ghia sobreviventes são disputados em leilões de carros clássicos e aparecem em coleções de museus e eventos como Pebble Beach, celebrados como uma das mais bem-sucedidas experiências de ‘híbrido transatlântico’ da era dourada do automóvel americano: Detroit fornecia a força bruta, Turin o talento artístico - e o resultado foi uma joia automotiva que, mesmo com vida curta, deixou pegada indelével na história.