DUESENBERG MODEL J LAGRANDE DUAL COWL PHAETON (1935): O AUGE DA OPULÊNCIA SOBRE RODAS
Voltando o relógio para os Estados Unidos da década de 1930, a Grande Depressão ainda marcava profundamente o país, mas, paradoxalmente, foi justamente nesse período que alguns dos automóveis mais luxuosos e exuberantes da história americana ganharam forma. Entre eles, nenhum simboliza melhor o excesso, a engenharia refinada e a sofisticação da elite do que o majestoso Duesenberg Model J LaGrande Dual Cowl Phaeton de 1935.
Fundada pelos irmãos Fred e August Duesenberg, a marca já havia conquistado respeito nas pistas antes de se tornar sinônimo de luxo extremo. Em 1926, a empresa foi adquirida por E.L. Cord, empresário visionário que desejava criar o melhor automóvel do mundo. A resposta veio em 1928 com o lançamento do Model J - um carro tão avançado que redefiniu os padrões da indústria.
Em 1935, o Model J já era um ícone. Seu coração mecânico era simplesmente extraordinário: um motor de 8 cilindros em linha de 6.9 litros (420 polegadas cúbicas), com duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC) e quatro válvulas por cilindro - uma arquitetura sofisticadíssima para a época. A potência oficial era de 265 cv, número impressionante nos anos 1930. Para efeito de comparação, muitos carros populares mal ultrapassavam 80 cv. Com esse motor, um Duesenberg podia superar os 190 km/h - desempenho quase inimaginável para um automóvel de luxo naquele período.
Mas o Model J não era vendido como carro completo convencional. A Duesenberg fornecia o chassi com motor, transmissão e componentes mecânicos, enquanto o cliente escolhia a carroceria junto a renomadas encarroçadoras. Entre elas, a própria LaGrande, divisão interna da Duesenberg especializada em projetos exclusivos.
O LaGrande Dual Cowl Phaeton era uma das expressões mais elegantes dessa filosofia. ‘Dual Cowl’ refere-se à presença de dois para-brisas: um dianteiro para o condutor e passageiros frontais, e outro menor para proteger os ocupantes traseiros do vento quando a capota estava abaixada. Era um detalhe de puro refinamento, pensado para proporcionar conforto mesmo em um conversível aberto.
Visualmente, o carro era monumental. Longo capô com aberturas laterais cromadas, para-lamas amplos e fluidos, rodas raiadas de grande diâmetro e uma postura imponente. A grade frontal vertical, com o emblema Duesenberg destacado, transmitia autoridade instantânea. Cada linha era desenhada para impressionar - não apenas pela beleza, mas pela presença quase arquitetônica.
O interior era igualmente suntuoso. Couro fino, madeira polida, instrumentos detalhados e acabamento artesanal. Não havia produção em massa ali; cada exemplar era praticamente único. Era um automóvel feito sob medida para magnatas industriais, estrelas de cinema e membros da alta sociedade. Nomes como Clark Gable, Gary Cooper e até membros da realeza europeia estavam entre os proprietários de Duesenberg.
Apesar do luxo ostensivo, o Model J era também um carro surpreendentemente moderno em comportamento dinâmico. Equipado com freios hidráulicos nas quatro rodas - algo ainda não universal na época - oferecia segurança superior. A transmissão manual de 3 velocidades, combinada ao torque abundante do oito em linha, proporcionava acelerações vigorosas mesmo com o peso elevado da carroceria.
Entretanto, o brilho não foi suficiente para proteger a marca das dificuldades econômicas. A produção total do Model J entre 1928 e 1937 foi de aproximadamente 481 unidades, incluindo as versões superalimentadas SJ. Em 1937, a Duesenberg encerraria suas atividades, deixando para trás uma lenda.
Curiosamente, a expressão americana “It’s a Duesy” - usada para descrever algo extraordinário - nasceu justamente da reputação desses automóveis. O Model J LaGrande Dual Cowl Phaeton de 1935 não era apenas um carro; era uma declaração de poder, engenharia e estilo em meio a uma das épocas mais difíceis da história americana.
Ao contemplarmos esse gigante elegante, percebemos que, mesmo em tempos de crise, a ambição humana de criar o melhor - o mais belo, o mais potente - jamais desaparece.