DUESENBERG MODEL J: QUANDO A AMÉRICA DESAFIOU O LUXO EUROPEU
O Duesenberg Model J Murphy Convertible Sedan de 1929 é mais do que um automóvel; é um ícone da engenharia e do luxo, uma obra-prima que encapsula o auge da opulência automotiva americana na virada dos anos 1920 para os 1930. Projetado para ser “o melhor carro que a América já produziu”, conforme a visão de Errett Lobban Cord, proprietário da Duesenberg, o Model J não apenas alcançou esse objetivo, mas também se tornou um símbolo de status, poder e sofisticação, sendo cobiçado por reis, magnatas e estrelas de Hollywood.
Origens
A Duesenberg, fundada em 1913 pelos irmãos Fred e August Duesenberg em Saint Paul, Minnesota, já era renomada por sua excelência em carros de corrida antes do Model J. Em 1921, a marca fez história ao vencer o Grande Prêmio da França, tornando-se o único fabricante americano a conquistar tal feito, com um motor de 8 cilindros em linha de 3.0 litros e freios a tambor hidráulicos, uma inovação para a época. Apesar do sucesso nas pistas, a Duesenberg enfrentava dificuldades financeiras com seus carros de turismo, como o Model A, que, embora tecnologicamente avançado, não alcançava o público esperado devido à gestão ineficiente dos irmãos Duesenberg.
Em 1926, Errett Lobban Cord, um visionário que já controlava a Auburn Automobile Company, adquiriu a Duesenberg, salvando-a da falência. Cord tinha um objetivo claro: criar o automóvel mais luxuoso e avançado do mundo, capaz de rivalizar com marcas europeias como Rolls-Royce, Hispano-Suiza e Isotta Fraschini. Ele encarregou Fred Duesenberg de projetar um chassi e motor que fossem a base para carrocerias personalizadas, e o resultado foi o Model J, apresentado em 1º de dezembro de 1928 no Salão de New York.
Engenharia e Inovação
O Duesenberg Model J era uma maravilha técnica. Seu chassi robusto, composto por vigas e travessas metálicas, oferecia rigidez excepcional, permitindo a instalação de diversos tipos de carrocerias. Um sistema automático de lubrificação acionava-se a cada 100 ou 130 quilômetros, e luzes no painel indicavam a necessidade de manutenção, como troca de óleo ou verificação da bateria. No entanto, o coração do Model J era seu motor: um bloco de 8 cilindros em linha de 6.9 litros, com duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC) e quatro válvulas por cilindro, projetado pela Duesenberg e fabricado pela Lycoming, outra empresa do grupo de Cord. Com 265 cv de potência em sua versão aspirada e até 320 cv na versão superalimentada (SJ), o Model J era o motor mais avançado já produzido nos Estados Unidos, capaz de atingir 145 km/h em segunda marcha e 190 km/h em velocidade máxima.
A Carroceria Murphy Convertible Sedan
A carroceria do Model J Murphy Convertible Sedan foi obra da Walter M. Murphy Company, de Pasadena, Califórnia, reconhecido como o mais prolífico e bem-sucedido encarroçador a trabalhar com a Duesenberg. Cerca de 125 carrocerias do Model J foram construídas pela Murphy, sendo o Convertible Sedan um dos modelos mais populares, com aproximadamente 45 a 50 unidades produzidas. Este design era conhecido por suas linhas elegantes e proporcionais, inspiradas em carrocerias anteriores feitas pela Murphy para marcas como Packard e Hudson.
O Convertible Sedan destacava-se por sua versatilidade e sofisticação, com um teto conversível que podia ser abaixado, conferindo ao carro uma aparência esportiva e luxuosa. Algumas unidades apresentavam características únicas, como um compartimento trancável no assoalho do banco traseiro, como no chassi 2192, ou um para-brisa inclinado, como no chassi 2489, um dos 12 modelos ‘Beverly’ construídos em 1934. A simplicidade clássica das linhas da Murphy, aliada à qualidade artesanal, fazia do Convertible Sedan uma escolha favorita entre os clientes abastados.
Impacto Cultural e Proprietários Famosos
O Model J era um símbolo de status, com um preço inicial de 8.500 dólares pelo chassi (equivalente a cerca de 195.894 dólares em 2024) e até 25.000 dólares para modelos completos com carroceria personalizada - uma fortuna numa época em que um Ford Model A custava cerca de 400 dólares. Entre seus proprietários estavam figuras como Clark Gable, Greta Garbo, Howard Hughes, Al Capone, William Randolph Hearst, além de membros da realeza europeia, como o Duque de Windsor e os reis Victor Emmanuel III da Itália e Alfonso XIII da Espanha. O carro também apareceu em eventos de prestígio, como a Feira Mundial de Chicago de 1933, onde o modelo ‘Twenty Grand’ foi exibido, custando 20.000 dólares, um valor astronômico para a época.
Desafios e Legado
Apesar de sua grandiosidade, o Model J enfrentou dificuldades devido à Grande Depressão, iniciada em outubro de 1929, que reduziu drasticamente o mercado de carros de luxo. Dos 500 chassis planejados, apenas 481 foram construídos entre 1928 e 1937, com cerca de 360 vendidos até 1931. A crise econômica, aliada à morte de Fred Duesenberg em 1932, vítima de pneumonia após um acidente com um Model SJ, marcou o declínio da marca. Em 1937, a Duesenberg encerrou suas atividades, mas o Model J permaneceu como um marco de engenharia e design.
O Murphy Convertible Sedan, em particular, continua sendo um dos modelos mais valorizados pelos colecionadores. Um exemplar de 1929, com chassi 2192 e motor J-169, foi restaurado com um superalimentador nos anos 1970 e vendido por valores expressivos em leilões, como os 1.4 milhões de dólares em 2013 para o chassi 2489. Outro, o J-112, foi o primeiro Model J vendido, adquirido por Humphrey W. Chadbourne por 13.500 dólares e restaurado na década de 1990, recebendo prêmios em concursos de elegância.
O Duesenberg Model J Murphy Convertible Sedan de 1929 é mais do que um carro; é uma cápsula do tempo que representa a ambição desmedida de uma era de ouro automotiva. Sua combinação de tecnologia avançada, design atemporal e exclusividade o tornou um ícone eterno, um lembrete de que, por um breve momento, a América produziu um automóvel que não apenas competiu com os melhores do mundo, mas os superou. O Model J não é apenas história, mas arte em seu estado puro. Hoje, cada exemplar preservado é um tesouro, com valores que frequentemente ultrapassam milhões de dólares, refletindo sua raridade e significado histórico.