FACEL VEGA FACEL III CONVERTIBLE (1964): O ÚLTIMO SUSPIRO ELEGANTE DA FRANÇA
No cenário automobilístico da França do pós-guerra, poucos nomes carregam uma aura tão aristocrática quanto o da Facel Vega. Fundada em 1954 por Jean Daninos, a marca nasceu com uma ambição clara: criar automóveis franceses capazes de rivalizar em luxo, desempenho e prestígio com os melhores exemplares britânicos e italianos - mas com personalidade própria. Seus primeiros modelos, grandes e imponentes, combinavam carrocerias refinadas com vigorosos motores V8 americanos, uma mistura improvável que resultava em máquinas rápidas, sofisticadas e caríssimas.
Contudo, no início da década de 1960, o mercado começava a mudar. O público desejava carros mais compactos e menos onerosos, sem abrir mão do charme. Foi nesse contexto que surgiu o Facel III, apresentado em 1963 como evolução do problemático Facellia. E é justamente o Facel Vega Facel III Convertible de 1964 que nos espera agora, estacionado diante de um café parisiense, com sua capota recolhida e o sol refletindo suavemente sobre a carroceria.
À primeira vista, o Facel III é um exercício de equilíbrio visual. Suas proporções são clássicas: capô longo, traseira curta e linhas limpas, quase delicadas. O desenho é discreto, mas elegante - nada de exageros ou cromados excessivos. A dianteira exibe faróis circulares levemente recuados e uma grade simples, enquanto a lateral revela uma linha de cintura contínua que transmite fluidez. A versão Convertible, com capota de lona bem ajustada e perfil harmonioso mesmo aberta, reforça o apelo sofisticado do modelo.
Debaixo do capô, uma diferença importante em relação aos V8 dos Facel maiores. Aqui, a marca optou por um motor de 4 cilindros de origem sueca, fornecido pela Volvo Cars. Trata-se de um bloco de 1.8 litros, robusto e confiável - uma escolha estratégica para afastar os fantasmas mecânicos do passado. Com cerca de 108 cv de potência, o desempenho não era explosivo, mas suficiente para levar o conversível francês a velocidades próximas dos 180 km/h, números respeitáveis para a época.
Mais do que a velocidade pura, o Facel III encantava pela maneira como entregava seu desempenho. A condução era suave, progressiva, ideal para longas estradas costeiras ou para um passeio noturno pelas avenidas iluminadas da Riviera Francesa. A suspensão independente na dianteira e o eixo traseiro bem calibrado garantiam comportamento estável, ainda que com aquele toque clássico de leve inclinação em curvas mais ousadas.
Mas é ao abrir a porta que o verdadeiro espírito da Facel Vega se revela. O interior é um espetáculo à parte. O painel metálico pintado à mão imita madeira com impressionante realismo - uma tradição artesanal da marca - e abriga instrumentos circulares bem distribuídos. Bancos revestidos em couro, acabamento refinado e atenção aos detalhes transformam o habitáculo em um pequeno salão sobre rodas. Não se trata apenas de dirigir; trata-se de experimentar.
Apesar de suas qualidades, o Facel III chegou tarde demais para salvar a empresa. Problemas financeiros acumulados e a reputação abalada dos modelos anteriores cobraram seu preço. Em 1964, justamente o ano deste Convertible que contemplamos, a Facel Vega encerraria suas atividades, tornando o Facel III um dos últimos capítulos dessa breve, porém intensa, história automobilística francesa.
Hoje, o Facel Vega Facel III Convertible é peça rara e cobiçada por colecionadores. Ele representa o esforço derradeiro de uma marca que ousou sonhar grande, combinando elegância francesa com pragmatismo mecânico nórdico.
Embora muitos associem a Facel Vega aos motores V8 americanos, foi justamente o confiável propulsor sueco do Facel III que deu ao modelo a melhor reputação mecânica da linha - ironicamente, o mais ‘modesto’ acabou sendo o mais equilibrado.