FERRARI DINO F246 GT E GTS: A ALMA DE MARANELLO EM TOM MENOR
Na virada para a década de 1970, a Ferrari vivia um momento de transição tão delicado quanto fascinante. Maranello já era sinônimo de motores V12 gloriosos, carros longos, potentes e aristocráticos, mas o mundo começava a mudar. Novas exigências de mercado, custos crescentes e a necessidade de ampliar o público levaram Enzo Ferrari a apostar em uma ideia até então considerada herética: um esportivo de menor porte, com motor V6, posicionado centralmente, e destinado a atrair novos clientes sem macular o prestígio da marca.
Assim nasceu o Dino F246 GT, apresentado em 1969 e plenamente consolidado ao longo da década de 1970 como um dos modelos mais emblemáticos da história de Maranello. Batizado em homenagem a Alfredo ‘Dino’ Ferrari, filho de Enzo, o carro carregava um peso emocional profundo, além de um significado técnico importante. O motor V6 de 2.4 litros, inteiramente em alumínio, produzia cerca de 195 cv e girava com uma suavidade e musicalidade que rapidamente se tornaram lendárias.
O design da carroceria, assinado pela Pininfarina e executado pela Scaglietti, é até hoje considerado um dos exercícios mais equilibrados e sensuais do design automotivo italiano. Baixo, largo e perfeitamente proporcionado, o Dino F246 parecia esculpido pelo vento, com curvas fluidas que escondiam sua engenharia sofisticada. Diferentemente dos Ferrari V12 da época, ele não intimidava pelo tamanho, mas seduzia pela forma.
A experiência ao volante reforçava essa filosofia. Com o motor montado em posição central-traseira e um chassi extremamente bem balanceado, o Dino oferecia um comportamento dinâmico exemplar. Não era o Ferrari mais potente, mas talvez fosse o mais puro em termos de prazer de condução. A direção sem assistência, a transmissão manual com engates metálicos precisos e o som inconfundível do V6 criavam uma conexão íntima entre carro e piloto.
Em 1972, a gama foi ampliada com a chegada do Dino F246 GTS, identificável pelo teto removível tipo targa. Essa versão adicionava um toque de versatilidade e prazer ao ar livre, sem comprometer significativamente a rigidez estrutural ou o desempenho. O GTS tornou-se rapidamente um favorito entre clientes que desejavam unir esportividade e charme mediterrâneo, especialmente nas estradas costeiras da Itália e do sul da França.
Curiosamente, o Dino não levava o emblema do cavallino rampante no capô - ao menos não nos primeiros anos. Enzo Ferrari acreditava que um carro com motor V6 não deveria carregar o nome Ferrari, preservando o prestígio dos V12. O tempo, no entanto, tratou de corrigir essa visão: hoje, o Dino F246 GT e GTS são considerados Ferraris em sua essência mais pura, talvez justamente por terem sido concebidos com menos imposições comerciais e mais paixão.
Apesar de sua importância histórica e beleza atemporal, o Dino F246 passou anos sendo subvalorizado no mercado de colecionadores. Somente nas últimas décadas ele passou a receber o reconhecimento financeiro compatível com seu status, tornando-se um dos clássicos mais desejados - e mais valorizados - de Maranello.