FERRARI DINO F308 GT4 (1975): O FERRARI QUE OUSOU SER DIFERENTE
A Itália da década de 1970 revelou um dos modelos mais curiosos e, ao mesmo tempo, importantes da história da lendária Ferrari. Trata-se do intrigante Ferrari Dino F308 GT4, apresentado em meados da década e que, em 1975, já ocupava um lugar singular na linha da casa de Maranello.
Para compreender o significado desse automóvel, é necessário lembrar da história da própria linha Dino. O nome não era apenas uma designação comercial: tratava-se de uma homenagem a Alfredo Ferrari, filho de Enzo Ferrari. Alfre(Dino) Ferrari teve papel importante no desenvolvimento de motores V6 para a marca antes de falecer prematuramente em 1956. Em sua memória, a Ferrari passou a utilizar o nome Dino em automóveis equipados com motores de menor cilindrada, principalmente V6.
Durante os anos 1960 e início dos 1970, os modelos Dino representaram uma espécie de porta de entrada para o universo Ferrari. O famoso Ferrari Dino F246 GT, por exemplo, conquistou enorme prestígio por seu design elegante e comportamento dinâmico refinado.
No entanto, a Ferrari decidiu dar um passo ousado quando desenvolveu o sucessor dessa linhagem. Em vez de manter o tradicional motor V6, o novo modelo adotaria um motor V8, marcando uma mudança significativa na filosofia da linha Dino.
Apresentado originalmente no Salão de Paris de 1973 e consolidado na gama em 1975, o Dino F308 GT4 também trouxe outra novidade histórica: foi o primeiro Ferrari de produção com motor V8 central-traseiro. Esse propulsor de 3.0 litros, equipado com quatro carburadores Weber, entregava cerca de 255 cv de potência, proporcionando desempenho impressionante para a época.
Mas talvez o aspecto mais surpreendente do carro estivesse em seu design. Diferentemente de muitos Ferraris anteriores, projetados por estúdios como a Pininfarina, o Dino F308 GT4 foi projetado pela célebre Bertone, sob a direção do talentoso designer Marcello Gandini - o mesmo responsável por ícones como o Lamborghini Countach.
Gandini criou uma carroceria radicalmente diferente da estética Ferrari tradicional. Em vez de linhas curvas e sensuais, o Dino F308 GT4 apresentava superfícies angulares e um perfil em forma de cunha, característico do design automotivo dos anos 1970. A dianteira baixa e afilada, os faróis escamoteáveis e as grandes entradas de ar laterais davam ao carro um aspecto moderno e agressivo.
Outro detalhe notável era a configuração 2/2, algo bastante incomum em um esportivo de motor central. Graças a um engenhoso arranjo do motor montado transversalmente, a Ferrari conseguiu criar um pequeno espaço para dois assentos traseiros, tornando o carro mais prático sem comprometer sua proposta esportiva.
O interior refletia o espírito tecnológico da época. O painel apresentava um desenho geométrico envolvente, com instrumentos bem distribuídos e uma posição de condução baixa e esportiva. O condutor ficava praticamente no centro da experiência, cercado pelo som característico do V8 que trabalhava logo atrás da cabine.
Nas estradas, o Dino F308 GT4 oferecia desempenho vibrante. A combinação de motor central, chassi bem equilibrado e direção precisa resultava em um carro extremamente ágil e divertido de dirigir. A aceleração vigorosa e o ronco metálico do V8 completavam a experiência típica de um esportivo italiano da época.
Curiosamente, durante seus primeiros anos de produção, o modelo não utilizava o emblema Ferrari, sendo comercializado simplesmente como Dino F308 GT4. Somente mais tarde a Ferrari decidiu incorporar oficialmente o modelo à sua linha principal, passando a exibir o famoso cavallino rampante na carroceria.
Hoje, o Dino F308 GT4 é reconhecido como um carro de enorme importância histórica. Ele marcou o início da longa tradição de motores V8 que, décadas depois, continuaria em modelos modernos da Ferrari.
E existe uma curiosidade particularmente interessante: apesar de ter sido inicialmente criticado por seu design angular - considerado muito diferente dos Ferraris clássicos - o Dino F308 GT4 passou, com o passar do tempo, a ser valorizado justamente por essa ousadia estética. Atualmente, muitos entusiastas o veem como um dos Ferraris mais inovadores da década de 1970, um carro que soube romper tradições para abrir novos caminhos na história da marca de Maranello.