FERRARI F250 GT BOANO COUPÉ (1957): A FERRARI QUE TRANSFORMOU EXCLUSIVIDADE EM PRODUÇÃO
Na Itália de meados dos anos 1950, a Ferrari começava a atravessar uma transformação decisiva. Depois de alguns anos construindo automóveis esportivos em quantidades quase artesanais, Enzo Ferrari percebia que a venda de modelos de estrada seria fundamental para financiar a atividade nas pistas. A família F250, lançada em diferentes configurações a partir de 1952, tornou-se o instrumento perfeito para essa estratégia. Em 1956, no Salão de Genebra, a Ferrari apresentou o novo F250 GT Coupé, desenhado pela então chamada Pinin Farina, e pouco depois a responsabilidade pela construção das carrocerias passou à Carrozzeria Boano, dando origem a um dos mais elegantes e importantes Ferrari GT dos anos 1950. Os exemplares produzidos em 1957 representam a fase final da série Boano antes da transição para a Carrozzeria Ellena.
A história do modelo, entretanto, começara um pouco antes. A Pinin Farina havia criado um protótipo de um novo F250 GT que foi apresentado em Genebra em 1956 e imediatamente despertou o interesse dos clientes. O sucesso acabou criando um problema bastante agradável para a Ferrari: a demanda era maior do que a capacidade produtiva da Pinin Farina, que naquele momento estava transferindo suas operações para uma nova fábrica em Grugliasco, nos arredores de Turin. Para atender aos pedidos, a produção das carrocerias foi confiada a Mario Boano, antigo nome importante da Carrozzeria Ghia. Assim, aquilo que inicialmente seria praticamente um exercício de estilo transformou-se no primeiro Ferrari GT produzido em uma escala relativamente significativa.
O desenho era uma evolução bastante madura da linguagem criada pela Pinin Farina para os Ferraris da época. O longo capô escondia um habitáculo recuado, enquanto os para-lamas dianteiros e traseiros eram integrados em uma linha contínua e elegante. Na dianteira, uma grade oval relativamente baixa dominava o conjunto, ladeada pelos faróis e, em muitos exemplares, pelos faróis auxiliares. A traseira trazia formas mais geométricas, com pequenos ressaltos nos extremos dos para-lamas que lembravam discretamente as tendências estilísticas norte-americanas do período. Os Boano de teto baixo, em particular, podem ser reconhecidos pela silhueta mais esguia e pela linha lateral praticamente reta atrás das portas.
Sob o capô estava o elemento que realmente definia o automóvel: o clássico motor V12 Colombo de 2.953 cm³, com arquitetura a 60 graus, bloco e cabeçotes de liga leve, diâmetro de 73 mm e curso de 58.8 mm. Na configuração utilizada nos Boano mais evoluídos, o motor do tipo 128B empregava três carburadores Weber 36 DCL/3, taxa de compressão de 8.8:1 e desenvolvia aproximadamente 240 cv a 7.000 rpm, com torque na faixa de 245-262 Nm, dependendo da especificação considerada. A potência era enviada às rodas traseiras por uma transmissão manual de 4 velocidades, enquanto o chassi mantinha a configuração tradicional dos Ferrari GT: motor dianteiro longitudinal, estrutura tubular de aço e eixo traseiro rígido.
A evolução mecânica também revelava o amadurecimento do projeto. A suspensão dianteira adotava braços duplos com molas helicoidais, substituindo a solução anterior com feixe de lâminas transversal, enquanto atrás permanecia o eixo rígido com molas semielípticas. O conjunto combinava a relativa simplicidade mecânica dos Ferrari daquele período com uma construção extremamente leve e eficiente. Alguns exemplares foram produzidos com carroceria integralmente de alumínio e destinados a clientes que desejavam uma interpretação mais esportiva; esses carros, contudo, eram exceções dentro de uma série predominantemente construída em aço.
O ano de 1957 foi particularmente importante para a identidade do modelo. Mario Boano foi chamado para trabalhar no departamento de estilo da FIAT, deixando a produção das carrocerias nas mãos de seu genro Ezio Ellena e de seu antigo sócio Luciano Pollo. A empresa passou então a se chamar Carrozzeria Ellena e continuou a fabricar os F250 GT, introduzindo pequenas alterações. A principal foi a adoção de um teto ligeiramente mais alto, que deu origem aos chamados exemplares ‘High Roof’, além da eliminação das pequenas janelas de ventilação nas portas. Por isso, o F250 GT Boano de teto baixo tornou-se particularmente desejado entre colecionadores, enquanto os exemplares posteriores são frequentemente identificados como F250 GT Ellena.
A produção da família Boano/Ellena permaneceu pequena pelos padrões modernos, mas representou um salto enorme para a Ferrari. As fontes especializadas apresentam pequenas diferenças nos números conforme a forma de contabilização dos protótipos e dos carros Boano/Ellena; a estimativa mais comum para a série completa é de cerca de 140 exemplares, enquanto a produção especificamente associada à Carrozzeria Boano é frequentemente registrada entre 70 e 75 unidades, além dos primeiros carros construídos pela Pinin Farina.
Mais importante que os números, porém, foi aquilo que o F250 GT Boano Coupé representou dentro da trajetória da Ferrari. Ele foi uma das primeiras manifestações concretas da transformação da marca de Maranello em fabricante de Grand Tourers produzidos em pequena série, capazes de combinar desempenho de competição, conforto e acabamento artesanal. A partir dele, a família F250 ganharia versões ainda mais famosas - como a F250 GT Berlinetta Tour de France, F250 GT California Spider e F250 GT SWB - e ajudaria a estabelecer definitivamente a Ferrari como referência mundial em automóveis esportivos de estrada. O Boano talvez não possua a fama de seus sucessores mais célebres, mas, olhando para a história com atenção, percebe-se que aquele elegante Coupé de 1957 ocupou uma posição fundamental: foi uma das pontes que levaram a Ferrari das pistas para as estradas e da produção artesanal para uma verdadeira indústria de automóveis de prestígio.