FERRARI F275 GTB/4 NART SPIDER: O RARO SOPRO DA LIBERDADE
Havia algo de mágico na Itália automotiva da segunda metade dos anos 1960. O pós-guerra já era uma lembrança distante, a economia se fortalecia e o automóvel deixava de ser apenas um meio de transporte para se tornar um objeto de expressão, estilo e desejo. Nascia ali a era dos grandes gran turismos italianos - e entre eles, poucos brilham com a intensidade quase mítica do Ferrari F275 GTB/4 NART Spider, de 1967.
A origem desse carro é quase tão cinematográfica quanto sua presença. No coração de Modena, Enzo Ferrari construía máquinas para vencer, mas também máquinas para seduzir. O F275 GTB/4 Coupé já era uma dessas obras - sua carroceria fluida desenhada pela Pininfarina e seu poderoso V12 de quatro comandos davam o tom da nova geração dos V12 clássicos de Maranello. Mas faltava algo para o mercado norte-americano, sempre ávido por exclusividades: um verdadeiro spider de alto desempenho, aberto ao céu, que pudesse levar a aura de Maranello às estradas ensolaradas da Califórnia e da Costa Leste.
É aqui que entra Luigi Chinetti, o lendário importador da Ferrari nos EUA e fundador da equipe NART (North American Racing Team). Chinetti enxergava no público americano um apetite por carros únicos - máquinas que fossem tão raras quanto uma obra de museu. Assim, convenceu Enzo Ferrari a produzir uma curtíssima série de spiders baseados no F275 GTB/4, mas com uma personalidade mais leve, esportiva e descontraída. Enzo concordou. Nascia então o Ferrari F275 GTB/4 NART Spider.
A ideia era fabricar 25 unidades, mas o destino - e a exclusividade quase exagerada - fez com que apenas 10 carros fossem realmente construídos. Dez Ferraris que se tornaram, de imediato, lendas de nascença.
Construído pela Scaglietti, o NART Spider conservava a longa silhueta musculosa do GTB/4, mas transformada pela ausência do teto fixo. O resultado era uma máquina extraordinária: elegante sem ser delicada, selvagem sem perder a compostura. Sob o longo capô repousava o clássico V12 Colombo de 3.3 litros com 300 cv, respirando com mais voracidade e cantando um dos mais belos timbres da história da marca.
Era um carro para quem queria sentir o vento, mas também dominar a estrada. Um veículo que parecia pedir para ser guiado no limite, como se cada curva fosse um convite pessoal de Luigi Chinetti para uma prova da NART.
A raridade transformou o F275 NART Spider - ainda em vida - em peça de culto. Virou celebridade de Hollywood quando um exemplar apareceu no filme ‘The Thomas Crown Affair’ estrelado por Steve McQueen em 1968, e desde então figura entre os carros mais desejados, mais caros e mais reverenciados da história da Ferrari.
Hoje, cada uma das dez unidades é tratada como uma joia histórica. Cada aparição em um evento, concurso ou leilão é cercada de reverência, como se os apaixonados por automóveis estivessem diante de um fragmento único da época dourada de Maranello.
Como curiosidade, um dos NART Spiders - o que pertencia ao colecionador Eddie Smith - foi vendido em 2013 por impressionantes 27.5 milhões de dólares, entrando para a lista dos carros mais caros já arrematados em leilão. Uma prova de que, às vezes, dez carros bastam para criar uma lenda eterna.