FERRARI F400i (1980): TROCANDO AS PISTAS POR ESTRADAS LONGAS E DESCOBRINDO O CHARME DA MATURIDADE
A Itália no início dos anos 1980 foi uma época de linhas retas, elegância contida e uma Ferrari que começava a experimentar novos caminhos. É nesse cenário que encontramos a Ferrari F400i de 1980, um modelo muitas vezes incompreendido, mas que representa uma das mudanças mais importantes da marca: a consolidação do conceito de gran turismo moderno.
A família F365/F400 havia nascido ainda nos anos 1970 como o lado mais civilizado da Ferrari. E a versão F400i, introduzida em 1979 e atualizada no início de 1980, trazia o ‘i’ de ‘iniezione’, marcando a adoção da injeção eletrônica Bosch K-Jetronic, uma resposta às regulamentações globais de emissões e também ao desejo de torná-la mais suave e confiável. Sob o longo capô, o seu coração era o clássico motor V12 Colombo de 4.8 litros, agora alimentado eletronicamente e entregando cerca de 310 cv.
Era força suficiente para empurrar, com dignidade e classe, um coupé 2/2 de quase 1.800 kg - um peso considerável para padrões Ferrari, mas coerente com a proposta. A F400i não era um carro para arrancadas violentas ou curvas devoradas com voracidade; ele era, antes de tudo, um viajante incansável, um ‘chevalier’ moderno projetado para cruzar fronteiras com pressa controlada e elegância absoluta.
Estilisticamente, trazia a pureza geométrica de Leonardo Fioravanti na Pininfarina: linhas retas, proporções equilibradas, faróis escamoteáveis, cintura elevada e uma serenidade que o diferenciava da agressividade das Ferraris berlinettas. O interior seguia a mesma filosofia: couro Connolly por todos os lados, painel de design lógico, bancos traseiros utilizáveis e aquele charme de “Ferrari para quem lê o Financial Times”, como jornalistas da época brincavam.
Foi também a primeira Ferrari a ser oferecida amplamente com transmissão automática GM THM400, algo impensável anos antes, mas que soava perfeitamente natural na proposta aguçada de gran turismo. Claro, ainda havia a caixa manual de 5 velocidades para os puristas - e hoje, aliás, são essas versões que alcançam valores mais altos entre colecionadores.
Mesmo longe das pistas, a F400i desempenhou um papel crucial: abriu espaço para as GTs modernas da Ferrari e ajudou a estabelecer a ideia de que o luxo e o conforto podiam conviver com o V12 de Maranello sem heresias. Ela pavimentou o caminho que, décadas depois, levaria à F456, à F612 e, indiretamente, ao atual DNA das grandes Ferraris de estrada.
Apesar de seu caráter discreto, a Ferrari F400i conquistou fãs improváveis - entre eles, grandes nomes da música, como Elton John, que teve um exemplar personalizado. E, curiosamente, foi uma das Ferraris mais longamente produzidas da história: quase 17 anos de vida em suas diferentes fases.