FERRARI F400i: O GRAN TURISMO QUE OUSOU SER DIFERENTE
No início da década de 1980, a Ferrari vivia um momento de transição. Após os excessos estilísticos e mecânicos dos anos 1970, a marca buscava manter viva a tradição dos grandes gran turismos capazes de cruzar continentes em alta velocidade, mas agora sob novas exigências de conforto, emissões e sofisticação. Foi nesse cenário que surgiu a Ferrari F400i, apresentada em 1979 como evolução direta da F400, e que em 1984 atingia plena maturidade técnica.
Ao contrário do que muitos esperavam de uma Ferrari, a F400i adotava uma postura deliberadamente refinada. Seu design, assinado pela Pininfarina, era sóbrio, elegante e quase aristocrático, rompendo com as linhas agressivas dos esportivos de motor central. Tratava-se de um coupé 2/2, com proporções clássicas, superfícies limpas e uma presença discreta, pensada mais para longas viagens do que para exibições em autódromos.
Sob o longo capô repousava um legítimo motor V12 Colombo de 4.8 litros, alimentado por injeção eletrônica Bosch K-Jetronic - daí o ‘i’ na nomenclatura. O motor entregava cerca de 315 cv, oferecendo uma condução suave, progressiva e silenciosa, fiel ao espírito gran turismo. Mas o grande gesto de ousadia estava na transmissão: pela primeira vez em sua história, a Ferrari oferecia oficialmente uma transmissão automática de 3 velocidades da General Motors, opção escolhida pela maioria dos compradores da época, sobretudo nos Estados Unidos.
Essa decisão, vista como heresia por puristas, fazia todo sentido para o público-alvo da F400i: executivos, empresários e clientes que desejavam o prestígio do V12 de Maranello aliado ao conforto de um automóvel de luxo. Direção assistida, ar-condicionado eficiente, interior revestido em couro Connolly e madeira refinada reforçavam essa proposta de elegância cosmopolita.
Em 1984, a Ferrari F400i já havia se consolidado como um modelo de nicho, distante das pistas, mas profundamente alinhado com uma tradição iniciada ainda nos anos 1950: a dos grandes Ferraris de estrada, feitos para viajar rápido, longe e com distinção.
Apesar de ter sido durante muito tempo uma das Ferraris mais subestimadas do mercado, a F400i vive hoje uma reavaliação histórica. Seu V12 dianteiro, o design clássico da Pininfarina e, ironicamente, a controversa transmissão automática passaram a ser vistos como símbolos de uma era em que a Ferrari ousou desafiar seus próprios dogmas.