FIAT 1100 R MORETTI COUPÉ (1966): O ÚLTIMO 1100 GANHA UM TRAJE DE ALTA-COSTURA
Na Itália de 1966, a longa história do FIAT 1100 entrava em seu capítulo final. A família que havia sustentado boa parte da motorização italiana no pós-guerra estava prestes a perder espaço para modelos mais modernos, mas a Carrozzeria Moretti, de Turin, ainda encontrou uma maneira de transformar o novo 1100 R em um elegante e raro coupé. Desenhado pelo suíço Dany Brawand, o FIAT 1100 R Coupé Moretti foi lançado naquele ano como uma das últimas interpretações fuoriserie baseadas na tradicional plataforma FIAT.
O próprio 1100 R - o ‘R’ significava Rinnovato, ou renovado - havia sido apresentado em janeiro de 1966 como substituto do 1100 D. A chegada do moderno FIAT 124, dois meses depois, levou a empresa a reposicionar o veterano 1100 em uma faixa mais acessível. O motor voltou a ser o conhecido quatro-cilindros de 1.089 cm³, agora com 48 cv a 5.200 rpm, enquanto a velocidade máxima ficava próxima dos 130 km/h. A tração continuava traseira e a transmissão manual de 4 velocidades passou novamente a ser comandada por uma alavanca no assoalho, solução que agradava aos condutores de perfil mais esportivo. Freios a disco dianteiros também faziam parte da evolução mecânica.
Foi sobre essa base relativamente simples que Brawand projetou uma carroceria completamente diferente. O Moretti Coupé apresentava capô longo e baixo, estreita grade dianteira em formato de colmeia, faróis circulares expostos e uma linha de teto que se prolongava em uma curva contínua até a curta traseira. A transformação era tão profunda que o modesto sedan de quatro portas desaparecia visualmente por completo. Restava apenas a arquitetura mecânica FIAT sob uma carroceria de proporções próximas às de um pequeno gran turismo.
O trabalho da Moretti seguia uma tradição já consolidada. Desde o início dos anos 1960, a empresa havia deixado de produzir automóveis completos próprios em grande escala e concentrara suas atividades em carrocerias especiais montadas sobre chassis e mecânicas FIAT. A relação de Giovanni Moretti com Gianni Agnelli teria sido importante para assegurar à pequena empresa de Turin condições favoráveis para continuar utilizando componentes FIAT em suas criações de baixa produção. O resultado foi uma extensa família de coupés e spiders que cobria desde os pequenos 1100 até modelos de 6 cilindros, como os 1800, 2100 e 2300.
No interior, a transformação seguia a mesma lógica. Embora preservasse a mecânica relativamente simples da 1100 R, o coupé recebia um ambiente mais sofisticado, com configuração para quatro ocupantes e acabamento condizente com sua proposta artesanal. Um exemplar de 1966 atualmente documentado, chassis 103P1434983, apresenta carroceria azul combinada a interior bege e conserva documentação italiana extremamente detalhada, tendo sido registrado originalmente em 20 de setembro de 1966, na província de Savona. O automóvel permaneceu na Itália por quase meio século antes de ser exportado para a França em 2013.
A raridade é justamente parte essencial de seu fascínio. Enquanto milhares de FIAT 1100 R saíram das linhas de Mirafiori entre 1966 e 1969, os Moretti eram construídos em pequeníssimos volumes, utilizando métodos artesanais de fabricação de carroceria. Não existem números definitivos amplamente documentados para a produção total do Coupé Moretti, mas a natureza artesanal e a sobrevivência de pouquíssimos exemplares fazem dele hoje uma peça muito mais rara que o modelo FIAT que lhe serviu de base.
Há ainda uma ironia histórica particularmente interessante. Enquanto a FIAT preparava uma nova geração de automóveis mais modernos - culminando no 124 e, poucos anos depois, no revolucionário 128 de tração dianteira - a Moretti continuava explorando a velha fórmula do motor dianteiro, tração traseira e carroceria artesanal. O 1100 R permaneceria em produção até 1969, encerrando definitivamente a longa trajetória da linhagem 1100 iniciada décadas antes.
O FIAT 1100 R Moretti Coupé de 1966 é, assim, uma espécie de epílogo artístico para uma das famílias mais importantes da FIAT. Seu modesto quatro-cilindros de 48 cv não pretendia rivalizar com os grandes esportivos italianos, mas a carroceria criada por Dany Brawand e executada pela Moretti transformava completamente sua personalidade. Era o velho 1100 vestindo uma última roupa de gala antes de deixar o palco - um pequeno coupé artesanal que demonstra, talvez melhor que qualquer outro, como a criatividade dos encarroçadores italianos conseguia transformar uma simples mecânica FIAT em algo raro, elegante e absolutamente pessoal.