FIAT 238 E PANORAMA (1979): A PEQUENA GRANDE VIAGEM DA FIAT ITALIANA
No final dos anos 1970, quando os utilitários europeus ainda conservavam uma forte personalidade própria e as vans de passageiros estavam começando a ganhar espaço como alternativas aos automóveis convencionais, a FIAT oferecia uma solução particularmente interessante: o 238 E Panorama. Derivado de um projeto que remontava a 1967, o modelo representava a evolução de um dos mais importantes veículos comerciais leves do fabricante italiano e, em sua configuração para passageiros, combinava a praticidade de um furgão com o conforto de um pequeno ônibus. Em 1979, o 238 E Panorama encontrava-se justamente em uma de suas fases mais maduras, depois da atualização realizada em 1977-78.
A história do 238 começara uma década antes, como sucessor do FIAT 1100 T. Sua concepção era bastante moderna para a época: o modelo utilizava uma arquitetura de motor dianteiro transversal e tração dianteira, derivada tecnicamente do Autobianchi Primula. Essa solução permitia manter o piso relativamente baixo e liberar espaço para passageiros ou carga, uma característica que ajudaria a explicar a longevidade do projeto. Inicialmente equipado com um motor de 1.221 cm³, o 238 passou posteriormente a utilizar os propulsores de 1.197 e 1.438 cm³ provenientes da família FIAT 124.
A atualização de 1977 deu origem ao 238 E, que recebeu nova dianteira, com uma grade mais baixa e larga incorporando os faróis, além de novas proteções laterais. O habitáculo também foi aprimorado, com bancos mais confortáveis, climatização revisada e um painel de instrumentos mais completo. Entre as diversas configurações comerciais - furgão, plataforma, cabine dupla, ambulância, ônibus e outras - estava a 238 E Panorama, apresentada como uma verdadeira versão de turismo. A publicidade italiana da época destacava justamente sua capacidade de transportar nove pessoas com habilitação convencional, aproximando o modelo do conceito de um automóvel familiar de grandes dimensões.
Para 1979, o motor de destaque era o conhecido quatro-cilindros em linha de 1.438 cm³, identificado pelo código 131 AZ 000. Alimentado por carburador Weber, desenvolvia aproximadamente 52 cv a 4.600 rpm, potência modesta pelos padrões atuais, mas adequada à proposta do veículo. A transmissão era manual de 4 velocidades e a tração dianteira permanecia como uma das características fundamentais do conjunto. Um exemplar de 1979 documentado com a configuração Panorama apresenta 4.590 mm de comprimento, 1.835 mm de largura, 1.927 mm de altura e entre-eixos de 2.400 mm, com peso na ordem de 1.440 kg. Sua velocidade máxima ficava em torno de 110 km/h.
Mais importante que números de desempenho, entretanto, era a capacidade de utilização. A versão Panorama podia acomodar oito passageiros mais bagagem, ou nove ocupantes conforme a configuração, transformando o 238 em uma espécie de minivan avant la lettre. O conceito também encontrou terreno fértil entre empresas especializadas em conversões para motorhome: a plataforma de tração dianteira e o piso relativamente baixo facilitavam a transformação do veículo em pequenas casas sobre rodas, uma vocação que acompanharia o 238 durante boa parte de sua carreira.
Curiosamente, mesmo depois da chegada do maior FIAT 242, em 1974, a FIAT decidiu manter o 238 em produção. O novo modelo era mais espaçoso e tecnicamente mais moderno, mas também mais caro e direcionado a uma faixa superior do mercado. O veterano 238 continuou, portanto, desempenhando o papel de utilitário compacto e versátil, beneficiando-se de dimensões mais manejáveis e de uma mecânica já amplamente conhecida. Essa estratégia permitiu que o modelo permanecesse no catálogo até 1983, quando finalmente foi substituído pelo FIAT Ducato, desenvolvido dentro de uma nova geração de veículos comerciais europeus.
O FIAT 238 E Panorama 1979 talvez não tenha o prestígio de um 130 Coupé, de um Dino ou de um 131 Abarth, mas representa uma faceta igualmente importante da indústria italiana: a capacidade de transformar soluções técnicas simples em produtos extremamente funcionais. Com seu formato quadrado, enorme área envidraçada, motor dianteiro transversal, tração dianteira e espaço para transportar praticamente uma pequena família inteira, o Panorama antecipava em muitos aspectos a filosofia das futuras vans familiares europeias. Era, em essência, um veículo de trabalho que descobriu uma segunda vocação: levar pessoas, e não apenas mercadorias, com a praticidade e a inteligência mecânica que caracterizavam a FIAT daquele período.