FIAT 24/32 REAR-ENTRANCE TONNEAU (1904): A FORÇA E A ELEGÂNCIA DA JOVEM INDÚSTRIA ITALIANA
Voltemos à Itália dos primeiros anos do século XX, quando o automóvel ainda era uma novidade cercada de luxo, aventura e, sobretudo, pioneirismo. Em Turin, a jovem Fabbrica Italiana Automobili Torino - FIAT começava a construir sua reputação e, entre seus primeiros modelos de prestígio estava o 24/32 HP, um grande automóvel de luxo apresentado no início da década e produzido em diferentes séries até 1905. O exemplar de 1904 que hoje conhecemos, com carroceria Rear-Entrance Tonneau, pertence à segunda série e representa muito bem a sofisticação que os automóveis italianos já começavam a alcançar naquele período.
O 24/32 HP havia sido concebido como um chassi relativamente versátil, permitindo que diferentes carrocerias fossem instaladas por encarroçadores especializados. Na segunda série, lançada em 1904, o modelo recebeu um enorme motor de 4 cilindros em linha, 6.902 cm³, com arquitetura do tipo T-head e refrigeração líquida por circulação forçada. A potência chegava a aproximadamente 32 cv a 1.200 rpm, números modestos para os padrões atuais, mas bastante expressivos em uma época em que a maioria dos automóveis ainda utilizava motores pequenos e de poucos cilindros. A força era enviada às rodas traseiras por uma caixa manual de 4 velocidades e um sistema de transmissão final por duas correntes, solução característica dos grandes automóveis da chamada Brass Era.
A denominação Rear-Entrance Tonneau descreve uma das características mais interessantes de sua carroceria. Os passageiros dos bancos traseiros acessavam o compartimento por uma porta localizada na parte posterior, enquanto o condutor e o passageiro dianteiro ocupavam uma área aberta à frente. Era uma configuração extremamente popular entre os automóveis de luxo daquele período e refletia uma época em que o automóvel ainda preservava características herdadas das carruagens. O chassi utilizava uma estrutura do tipo escada, com componentes mecânicos separados da carroceria, enquanto a suspensão recorria a eixos rígidos e feixes de molas longitudinais. A direção empregava mecanismo de setor e sem-fim, e os freios atuavam principalmente sobre o eixo traseiro.
Apesar de seu tamanho e peso consideráveis - cerca de 1.350 kg em uma das especificações documentadas - o FIAT era capaz de alcançar aproximadamente 75 km/h, uma velocidade respeitável para 1904. Mais importante ainda, o modelo incorporava soluções que ajudaram a definir o automóvel moderno. O 24/32 HP está associado ao uso pioneiro de um pedal de acelerador e de uma transmissão com 4 relações à frente, enquanto sua arquitetura permitia que a FIAT oferecesse diferentes configurações de carroceria sobre a mesma base mecânica.
O 24/32 HP também possui uma interessante ligação com a aristocracia europeia. A rainha Margherita da Itália chegou a possuir um exemplar denominado Épervier, com o qual percorreu mais de 5.000 quilômetros pela Europa durante aproximadamente seis meses, tendo como motorista o piloto italiano Alessandro Cagno. A história ajuda a dimensionar o prestígio que a FIAT já começava a conquistar poucos anos depois de sua fundação.
Entre os exemplares sobreviventes, destaca-se particularmente o chassi 745, fabricado em 1904. Sua trajetória parece saída de um romance automobilístico. Vendido originalmente ao casal americano George e Mabel Agassiz, durante a lua de mel dos dois na Europa, o automóvel foi enviado aos Estados Unidos e permaneceu na propriedade da família em Yarmouth Port, Massachusetts. Na década de 1930, após a morte de Charles Ritchie Simpkins, irmão de Mabel e um dos principais usuários do carro, o FIAT foi literalmente enterrado na propriedade da família. Em 1942, entusiastas descobriram o local e desenterraram o automóvel, que havia sobrevivido graças às características arenosas e bem drenadas do solo.
Depois de passar pelas mãos de importantes colecionadores americanos, entre eles D. Cameron Peck e David Uihlein, o carro permaneceu durante 55 anos na coleção Uihlein. Na década de 1990, foi restaurado e recebeu uma nova carroceria Rear-Entrance Tonneau, construída artesanalmente segundo desenhos históricos. Posteriormente, o automóvel passou a participar regularmente do London to Brighton Veteran Car Run, uma das mais tradicionais celebrações dos primeiros anos do automobilismo, demonstrando que aquele enorme FIAT de 1904 não é apenas uma peça estática de museu, mas uma máquina ainda capaz de voltar às estradas.
Com sua enorme mecânica de 4 cilindros, transmissão de 4 velocidades, transmissão final por correntes e elegante carroceria tonneau, o FIAT 24/32 Rear-Entrance Tonneau de 1904 representa uma fase fascinante da história automobilística: o momento em que fabricantes como a FIAT começavam a transformar o automóvel de uma experiência experimental em um verdadeiro produto de luxo. Mais de um século depois, seus 32 cv podem parecer modestos, mas a combinação de dimensões, engenharia e sofisticação revela por que modelos como este ajudaram a estabelecer a reputação da indústria italiana ainda em seus primeiros capítulos.