FIAT 520 CONVERTIBLE (1928): A ELEGÂNCIA ITALIANA NA VÉSPERA DA MODERNIDADE
Na Itália de 1928, a indústria automobilística atravessava uma transformação profunda. O automóvel começava a deixar de ser exclusivamente um objeto artesanal destinado às elites e passava, pouco a pouco, a assumir um papel mais amplo na sociedade. Nesse cenário, o FIAT 520 ocupava uma posição particularmente interessante: era um modelo de categoria média-alta, sofisticado para os padrões da época e equipado com um moderno motor de 6 cilindros. Produzido originalmente entre 1927 e 1929, o 520 foi oferecido em diferentes configurações de carroceria, entre elas berlina, limousine, landaulet, torpedo e cabriolet, esta última particularmente elegante na interpretação que conhecemos como FFIAT 520 Convertible de 1928. O modelo seria ainda historicamente importante por ser o primeiro FIAT produzido em série com volante à esquerda, acompanhando a consolidação do tráfego pela direita na Itália.
Apesar de compartilhar a denominação com o extraordinário 520 Superfiat de 1921-1922, equipado com um gigantesco motor V12 de 6.8 litros, o 520 de 1928 pertencia a uma proposta completamente diferente. Era um automóvel mais racional, destinado ao segmento médio-alto, mas ainda suficientemente prestigioso para representar o proprietário. Seu chassi convencional, com 2.90 metros de entre-eixos, permitia a instalação de carrocerias relativamente espaçosas, enquanto a construção podia receber diferentes configurações conforme a finalidade. No caso do Convertible, a ausência de um teto rígido transformava a experiência de condução e conferia ao automóvel aquele caráter aberto e teatral tão característico dos grandes carros europeus dos anos 1920.
O coração mecânico era um motor de 6 cilindros em linha de 2.244 cm³, com válvulas laterais e alimentação por carburador. Desenvolvendo 46 cv a 3.400 rpm, o motor estava associado a uma transmissão manual de 4 velocidades e enviava sua força às rodas traseiras. Não se tratava de um automóvel esportivo, mas seu desempenho era bastante respeitável para o período: o Museu Nacional do Automóvel de Turin registra 90 km/h de velocidade máxima, enquanto outras referências da época apontam para aproximadamente 100 km/h em determinadas configurações. O 520 também empregava quatro freios a tambor, uma solução que começava a se tornar cada vez mais importante à medida que os automóveis ganhavam velocidade e as estradas recebiam um número crescente de veículos.
Tecnicamente, o 520 representava um passo importante para a FIAT. O bloco de 6 cilindros não apenas proporcionava funcionamento mais suave do que os motores de menor número de cilindros, como também inaugurava uma linhagem de modelos de 6 cilindros que teria continuidade na gama da marca. Outro detalhe particularmente significativo era o sistema de ignição por bobina, uma solução adotada pela FIAT nesse período e que contribuía para tornar o funcionamento do motor mais moderno e confiável. A construção, contudo, ainda conservava características típicas da década: chassi separado, eixo traseiro rígido e uma arquitetura mecânica relativamente simples, robusta e acessível para os padrões de um automóvel de prestígio dos anos 1920.
Visualmente, o 520 Convertible pertencia a uma época em que a carroceria ainda definia grande parte da personalidade de um automóvel. O longo capô dianteiro, a posição elevada do habitáculo, os para-lamas independentes e as rodas de aspecto robusto formavam uma silhueta que hoje parece quase saída de uma ilustração de época. Com a capota recolhida, a carroceria aberta evidenciava as proporções do chassi e oferecia aos passageiros uma experiência completamente diferente daquela proporcionada pelos futuros sedans fechados. Era um automóvel concebido para ser visto, mas também para representar uma nova maneira de viajar: mais rápida, mais independente e, sobretudo, mais individual.
A importância comercial do projeto pode ser medida pelos números. Mais de 20 mil exemplares do FIAT 520 foram construídos durante sua carreira, número expressivo para um automóvel de 6 cilindros na segunda metade dos anos 1920. A gama também deu origem ao 520 T, versão destinada aos táxis, equipada com um seis cilindros de 1.866 cm³ e 35 cv. A produção do 520 acabou sendo sucedida pelo novo 521, apresentado em 1928, embora o 520 tenha permanecido em fabricação por algum tempo.
O FIAT 520 Convertible de 1928 representa, portanto, um daqueles momentos particularmente interessantes da história automobilística em que tradição e modernidade convivem no mesmo automóvel. De um lado, ainda estavam presentes o chassi convencional, os grandes para-lamas, a carroceria aberta e a construção artesanal típica dos anos 1920; de outro, surgiam o seis cilindros, o volante à esquerda, a ignição por bobina, os quatro freios e uma concepção cada vez mais racional do automóvel. O 520 não alcançou a fama de alguns dos grandes FIAT esportivos que viriam posteriormente, mas ajudou a estabelecer uma nova direção para O fabricante de Turin - e, ao fazê-lo, tornou-se uma das testemunhas mais interessantes da transformação do automóvel italiano no final daquela década.