F&M ANTAS V8 GT: A ÁGUIA ITALIANA QUE RESGATOU A ARTE DAS GRANDES BERLINETTAS
Em 2006, quando a indústria automobilística europeia caminhava cada vez mais para a eletrônica, a aerodinâmica computadorizada e a produção em larga escala, uma pequena oficina de Lugnano, na Itália, decidiu olhar justamente na direção oposta. A Faralli & Mazzanti - F&M, fundada poucos anos antes por Walter Faralli e Luca Mazzanti, colocou em prática sua experiência com restauração de automóveis históricos para criar um esportivo que parecia ter escapado de uma fotografia dos anos 1930. Assim nasceu o F&M Antas V8 GT, primeiro automóvel de turismo desenvolvido pela empresa e um dos projetos que ajudariam a estabelecer as bases da futura Mazzanti Automobili. O modelo foi apresentado ao público no Top Marques Monaco de 2006, revelando uma filosofia absolutamente artesanal: sua carroceria de alumínio era construída manualmente sobre uma estrutura de aço, enquanto os primeiros desenhos haviam sido feitos em escala real sobre papel, sem o auxílio de computadores.
A inspiração vinha diretamente da chamada era de ouro do design italiano, abrangendo especialmente os anos 1930 até o final dos anos 1960. O resultado era uma berlinetta 2/2 de proporções muito particulares, com capô extremamente longo, cabine recuada, para-lamas volumosos e uma traseira alongada. Na dianteira, a enorme grade cromada em formato quase de coração era ladeada por quatro faróis, enquanto a seção traseira recebia uma espécie de barbatana central que reforçava sua aparência de automóvel de competição transformado em grand tourer. Havia algo de Bugatti, Maserati e das antigas carrozzerie italianas em suas formas, mas o conjunto não pretendia ser uma simples réplica de um clássico: era uma interpretação contemporânea da construção artesanal que Faralli e Mazzanti admiravam.
Sob o longo capô estava uma das características mais fascinantes do projeto: um V8 Maserati de 4.719 cm³, instalado longitudinalmente na dianteira e alimentado por quatro carburadores Weber 38 DCNL5. O motor, derivado de uma unidade Maserati da década de 1960, desenvolvia aproximadamente 310 cv a 6.000 rpm e 422 Nm a 3.500 rpm, números que podem parecer modestos diante das supercarros contemporâneos, mas que combinavam perfeitamente com a proposta analógica do Antas. A força era enviada às rodas traseiras por uma transmissão manual de 5 velocidades, enquanto a suspensão dianteira utilizava braços duplos, molas helicoidais, amortecedores telescópicos e barra estabilizadora; atrás, curiosamente, havia um eixo rígido com molas e amortecedores telescópicos.
Com cerca de 1.300 kg, 4.750 mm de comprimento, 1.780 mm de largura e apenas 1.200 mm de altura, o Antas apresentava uma relação peso-potência bastante interessante. A F&M anunciava 0 a 100 km/h em cerca de 5 segundos e velocidade máxima superior a 270 km/h, desempenho suficiente para colocá-lo entre os esportivos mais rápidos de sua categoria naquele período. O sistema de frenagem empregava discos nas quatro rodas, enquanto as rodas de 17 polegadas recebiam pneus 205/50 na dianteira e 225/55 na traseira.
Mas talvez a característica mais interessante do Antas não estivesse em nenhuma cifra. A F&M pretendia que cada automóvel fosse praticamente uma peça única. O comprador poderia participar de maneira muito mais profunda da configuração do veículo, incluindo modificações de acabamento, interior e até mesmo da motorização. A proposta artesanal chegava ao ponto de o proprietário receber o automóvel acompanhado por um estojo revestido de veludo azul, contendo uma placa de identificação, um livro fotográfico e um DVD que documentava a construção daquele exemplar específico. O preço inicial anunciado em 2006 era de cerca de 230 mil euros, colocando o Antas no território dos exclusivos automóveis coachbuilt.
O nome também carregava uma história própria. ‘Antas’ significa ‘águia’ na antiga língua dos etruscos, referência escolhida para representar a nobreza e a força do projeto. E a pequena berlinetta acabaria ganhando uma inesperada participação na cultura popular: o modelo apareceu no filme Speed Racer, lançado em 2008, tornando-se ainda mais conhecido entre os aficionados por automóveis exóticos.
O Antas V8 GT é, portanto, muito mais importante do que suas poucas unidades construídas poderiam sugerir. Ele representou a primeira tentativa concreta de Faralli e Mazzanti de transformar a experiência adquirida restaurando automóveis históricos em um produto próprio. Mais do que uma supercarro, era uma declaração de princípios: alumínio moldado à mão, desenho feito no papel, motor Maserati de caráter clássico e construção artesanal individualizada. Pouco depois, a F&M apresentaria novas evoluções do conceito, até que Luca Mazzanti seguiria definitivamente o caminho da fabricação de esportivos, culminando na criação da Mazzanti Automobili e em máquinas muito mais extremas, como a Evantra. Nesse sentido, o Antas V8 GT pode ser visto como a primeira grande página da história moderna da marca - uma espécie de manifesto sobre rodas de uma pequena empresa italiana que decidiu desafiar a lógica da indústria e recuperar a alma das antigas carrozzerie.