FORD SUPER DELUXE COUPÉ (1946): A AMÉRICA VOLTA A PRODUZIR AUTOMÓVEIS
Os Estados Unidos de 1946 vivia um momento particularmente simbólico da história automobilística americana. A Segunda Guerra Mundial havia terminado poucos meses antes, e as grandes fábricas de Detroit começavam a abandonar gradualmente a produção militar para voltar a fabricar aquilo que os consumidores aguardavam havia anos: automóveis novos. É nesse cenário que surge o Ford Super Deluxe Coupé de 1946, integrante de uma linha que, embora ainda carregasse muitos elementos dos modelos anteriores à guerra, representava para milhões de americanos o tão esperado retorno à normalidade. O novo Ford foi apresentado em setembro de 1945 e oficialmente promovido ao público no chamado ‘V-8 Day’, em 26 de outubro daquele ano. A procura foi extraordinária: mais de um milhão de pessoas visitaram as concessionárias no dia da apresentação e quase meio milhão de pedidos foram registrados imediatamente.
Visualmente, o Super Deluxe Coupé de 1946 era uma interpretação bastante refinada do automóvel americano do período. A carroceria de duas portas combinava uma longa dianteira com para-lamas integrados, ampla grade cromada, capô de desenho arredondado e uma cabine recuada que conferia ao carro as proporções clássicas dos grandes automóveis americanos do pós-guerra. O modelo que chegava às ruas, entretanto, não era inteiramente novo: a Ford havia retomado essencialmente a arquitetura dos automóveis de 1942, eliminando os elementos de aparência militar introduzidos durante o conflito e acrescentando novos detalhes de acabamento. Era, portanto, um automóvel de transição - tecnicamente derivado do pré-guerra, mas comercialmente fundamental para inaugurar a nova era.
Sob o longo capô estava um dos motores mais emblemáticos da Ford: o V8 Flathead de 3.9 litros (239.4 pol³), com válvulas laterais e alimentação por carburador de corpo duplo. Desenvolvia 100 cv a 3.800 rpm e aproximadamente 244 Nm de torque. A transmissão era manual de 3 velocidades, com comando na coluna, enquanto a força chegava às rodas traseiras. O conjunto utilizava ainda freios hidráulicos a tambor nas quatro rodas de 16 polegadas - uma solução moderna para a época - e o automóvel tinha entre-eixos de 2.90 metros.
As dimensões revelavam a escala dos automóveis americanos daquele período. O Coupé media aproximadamente 4.980 mm de comprimento, 1.860 mm de largura e pesava cerca de 1.460 kg em sua configuração básica. A velocidade máxima estimada ficava na casa dos 130 km/h, enquanto a aceleração de 0 a 96 km/h era naturalmente modesta, em torno de 17.5 segundos. Mais do que velocidade, contudo, o Super Deluxe oferecia aquilo que os compradores americanos valorizavam: espaço, suavidade e a sensação de conduzir um automóvel grande e robusto.
Dentro da família Super Deluxe, o Coupé ocupava uma posição particularmente interessante. Havia também sedans Tudor e Fordor, conversíveis, peruas e outras configurações, mas a carroceria fechada de duas portas oferecia uma combinação atraente de estilo e praticidade. A versão Super Deluxe Coupé/Sedan-Coupé alcançou 70.826 unidades produzidas em 1946, com preço-base de aproximadamente 1.307 dólares. Curiosamente, a Ford também oferecia o Coupé com um seis-cilindros de 3.7 litros, capaz de produzir 90 cv, mas era o V8 que melhor representava o espírito da linha.
O retorno da produção civil também tinha uma importância econômica enorme para a Ford. Durante a guerra, a empresa havia se dedicado intensamente à fabricação de veículos e equipamentos militares; agora precisava atender uma população que havia passado anos sem poder comprar automóveis novos. Em 1946, a produção total da Ford chegou a aproximadamente 467 mil veículos, mais que o dobro do volume registrado em 1942. O Super Deluxe, portanto, não era apenas mais um modelo no catálogo: era parte fundamental da retomada da indústria automobilística americana.
Há algo especialmente interessante no Super Deluxe de 1946 quando o observamos com os olhos de hoje. Ele ainda pertence claramente ao universo automobilístico dos anos 1930 e início dos anos 1940, com sua construção tradicional, grande motor V8 de válvulas laterais, três marchas e carroceria sobre uma arquitetura convencional. Mas, ao mesmo tempo, carrega consigo o sentimento de uma nova época. Depois da austeridade dos anos de guerra, aquele Ford grande, cromado e confortável simbolizava prosperidade, liberdade e o retorno à vida civil.
Por isso, o Ford Super Deluxe Coupé de 1946 ocupa um lugar especial na história americana. Não foi uma revolução mecânica nem um projeto completamente novo, mas talvez não precisasse ser. Sua missão era outra: devolver aos americanos o prazer de comprar um automóvel novo e anunciar que Detroit estava novamente em movimento. Com seu V8 Flathead de 100 cv, suas linhas elegantes e sua presença tipicamente americana, o Coupé de 1946 tornou-se uma das imagens mais representativas daquele breve momento em que a indústria automobilística deixava definitivamente para trás os anos de guerra e começava a acelerar rumo à exuberante América dos anos 1950.