FRANKLIN SERIES 12 AIRMAN SEDAN (1928): O AUTOMÓVEL QUE DISPENSAVA O RADIADOR
Voltemos agora aos Estados Unidos de 1928, mas para conhecer um fabricante que seguia um caminho bastante diferente daquele adotado pela maioria de Detroit. Em Syracuse, no estado de New York, a Franklin Automobile Company havia construído sua reputação justamente sobre uma solução mecânica que, naquela época, parecia quase excêntrica: motores refrigerados a ar. O lançamento da linha Series 12 Airman naquele ano representou um dos momentos mais sofisticados da trajetória da marca e coincidiu com uma homenagem a Charles Lindbergh, o célebre aviador que, após seu histórico voo transatlântico de 1927, havia se tornado um dos maiores símbolos tecnológicos dos Estados Unidos. A Franklin explorou habilmente essa associação ao batizar o novo automóvel de Airman.
O Franklin Series 12 Airman Sedan de 1928 era, portanto, um automóvel de luxo bastante peculiar. Embora a dianteira exibisse uma grande grade vertical que visualmente lembrava um radiador convencional, tratava-se essencialmente de um elemento decorativo: não havia radiador nem líquido de arrefecimento. A Franklin utilizava um sofisticado sistema de circulação forçada de ar, no qual um ventilador dianteiro conduzia o fluxo através de dutos sobre as cabeças e cilindros dotados de aletas de refrigeração. A ausência de bomba dágua, mangueiras e demais componentes associados aos sistemas convencionais reduzia a manutenção e, sobretudo, eliminava problemas como congelamento no inverno ou superaquecimento e fervura em condições de calor intenso.
A Series 12 trazia ainda importantes avanços estruturais. A versão 12A, de entre-eixos de aproximadamente 3.02 metros, oferecia uma ampla variedade de carrocerias, entre elas Sedan, Oxford Sedan, Sport Sedan, Victoria, Victoria Coupé, Coupé e Convertible Coupé. Já a 12B, introduzida posteriormente em 1928, utilizava entre-eixos maior, de 3.251 mm, e incluía sedans de cinco e sete lugares, além de limusine e outras configurações. Curiosamente, o 12B foi o último Franklin a utilizar um chassi predominantemente de madeira, enquanto o 12A marcou a adoção de um chassi convencional de aço em uma fase importante da evolução construtiva da empresa.
Sob o capô estava outro dos grandes diferenciais do Airman: um motor de 6 cilindros em linha refrigerado a ar, de aproximadamente 4.5 litros (274.2 pol³), com comando de válvulas no cabeçote e virabrequim apoiado em sete mancais. Na configuração Series 12, desenvolvia cerca de 48 cv a 2.500 rpm, enquanto a potência fiscal era estimada em 29.4 hp. A transmissão manual tinha 3 velocidades, com tração traseira. Apesar da potência relativamente modesta, a grande quantidade de torque em baixa rotação, combinada à construção cuidadosamente projetada, fazia do Franklin um automóvel de condução suave e bastante competente para sua época.
A engenharia do motor era especialmente interessante. A Franklin havia aperfeiçoado o chamado sistema ‘downdraft’, no qual o ar era forçado sobre as aletas dos cilindros em vez de simplesmente atravessá-las lateralmente. Segundo o H. H. Franklin Club, os motores dessa geração eram reconhecidos pela suavidade e pelo silêncio de funcionamento, enquanto o sistema de lubrificação por pressão alimentava os mancais e bielas. A construção leve dos automóveis também contribuía para que o Airman tivesse desempenho surpreendentemente bom para um carro de seu porte.
E o porte realmente impressionava. O Sedan de sete passageiros da Series 12 chegava a aproximadamente 1.720 kg, enquanto o entre-eixos de 3.023 mm proporcionava uma cabine bastante espaçosa. O preço-base da configuração Sedan registrada para 1928 era de aproximadamente 2.980 dólares, colocando o Franklin em uma faixa bastante elevada do mercado americano. A produção da Series 12 Airman Sedan ficou em torno de 7.770 unidades, um volume pequeno quando comparado aos grandes fabricantes americanos, mas expressivo para uma marca independente e especializada.
O design também merecia atenção. A Franklin havia recorrido ao trabalho do francês J. Frank de Causse, responsável por dar aos modelos da segunda metade dos anos 1920 uma aparência muito mais elegante, com a característica dianteira vertical e os grandes faróis em forma de barril. Em 1928, após a morte de de Causse, Raymond Dietrich assumiu papel importante no desenvolvimento estilístico da marca. A influência de Dietrich seria particularmente evidente em algumas carrocerias especiais do Airman, incluindo uma extraordinária versão conversível de seis janelas construída pela Walker Body Company.
O nome Airman também não ficou apenas na publicidade. A Franklin aproveitou a associação com Lindbergh para demonstrar a resistência de sua tecnologia e, em 1928, o piloto Erwin ‘Cannon Ball’ Baker conduziu um Airman em uma viagem de longa distância que reforçou a reputação da marca. O automóvel também demonstraria sua resistência em uma subida e descida do Lookout Mountain, no Tennessee, alcançando média de aproximadamente 65 km/h, em um percurso de 14.2 milhas. No ano seguinte, Baker voltaria a colocar um Franklin em evidência ao estabelecer um recorde de travessia dos Estados Unidos em cerca de 69 horas.
Há, portanto, algo fascinante no Franklin Series 12 Airman Sedan de 1928. Enquanto fabricantes como Ford, Chevrolet e Buick caminhavam para a padronização e para enormes volumes de produção, a Franklin insistia em uma filosofia própria, utilizando uma tecnologia de refrigeração que dispensava completamente o tradicional radiador funcional. O Airman combinava essa engenharia incomum com construção relativamente leve, seis cilindros suaves, acabamento sofisticado e uma carroceria elegante. Foi uma das manifestações mais refinadas da escola americana dos automóveis refrigerados a ar - uma escola que jamais conquistaria o mercado de massa, mas que deixou para trás alguns dos automóveis tecnicamente mais interessantes da América pré-Depressão.
A história, porém, seria cruel com a Franklin. A Grande Depressão atingiria duramente os fabricantes independentes e a empresa acabaria encerrando suas atividades após o ano-modelo de 1934. Hoje, o Airman de 1928 permanece como testemunho de uma época em que ainda havia espaço para soluções mecânicas radicalmente diferentes e em que um pequeno fabricante de Syracuse podia desafiar as convenções da indústria americana.