FRAZER NASH LE MANS COUPE (1956): O PEQUENO BRITÂNICO QUE NASCEU PARA CORRER
Voltemos agora à Inglaterra dos anos 1950, quando a competição automobilística europeia começava a recuperar toda a sua intensidade depois dos anos de guerra. É nesse ambiente que encontramos uma das criações mais raras e fascinantes da Frazer Nash: o Le Mans Coupe, um esportivo de dois lugares concebido essencialmente para enfrentar os circuitos de alta velocidade e que, em sua derradeira fase de produção, chegou a 1956. A história do modelo começou em 1953, quando a Frazer Nash decidiu transformar sua experiência com os esportivos abertos de competição em um automóvel de carroceria fechada. O resultado foi o primeiro coupé de teto fixo produzido pela marca, desenvolvido especificamente com as 24 Horas de Le Mans em mente. Apenas nove exemplares foram construídos, o que faz dele um dos mais raros Frazer Nash do pós-guerra.
A origem competitiva do projeto ficava evidente nas próprias formas da carroceria. Em vez de buscar o luxo ou o conforto característicos de um grand tourer convencional, os engenheiros concentraram-se em reduzir a resistência aerodinâmica e manter o peso sob controle. A carroceria era feita artesanalmente em alumínio, envolvendo um chassi tubular de aço de concepção extremamente leve. O desenho apresentava uma frente baixa e arredondada, ampla grade horizontal e uma traseira suavemente descendente, enquanto a pequena cabine de dois lugares ficava praticamente encaixada entre os eixos. O capô trazia ainda uma característica elevação destinada a acomodar a instalação dos três carburadores Solex. Mesmo com o teto fixo, o Le Mans Coupe pesava apenas cerca de 760 kg, número impressionante para um esportivo daquela época.
A mecânica era igualmente especial. Atrás da dianteira elegante estava o conhecido motor de 6 cilindros em linha Bristol de 1.971 cm³, motor descendente do BMW M328 pré-guerra e que se tornaria uma das grandes armas dos Frazer Nash de competição. Com comando de válvulas no cabeçote, taxa de compressão de 9.5:1 e três carburadores Solex, a unidade desenvolvia cerca de 142 cv a 5.500 rpm. O motor trabalhava associado a uma transmissão manual de 4 velocidades, enviando a força às rodas traseiras. A combinação entre baixo peso, motor de elevada eficiência e construção extremamente simples produzia uma relação peso/potência de aproximadamente 0.18 cv/kg, extraordinária para um esportivo britânico daquela época.
O chassi seguia a mesma filosofia. A estrutura tubular paralela era derivada daquela utilizada nos monopostos da Frazer Nash e nos modelos Targa Florio, enquanto a suspensão dianteira empregava braços inferiores e feixe de molas transversal, uma solução de inspiração BMW que a marca utilizava havia anos. Na traseira havia eixo rígido com molas por barras de torção. A direção era do tipo pinhão e cremalheira e os freios hidráulicos a tambor atuavam nas quatro rodas. Pela primeira vez em um Frazer Nash de produção, o Le Mans Coupe também utilizava rodas raiadas, reforçando sua vocação competitiva.
O nome do automóvel não era uma simples homenagem. O primeiro exemplar foi preparado para competir em Le Mans em 1953, depois de estrear no International Meeting de Silverstone. Conduzido por Ken Wharton e Lawrence Mitchell, o carro terminou a famosa prova francesa em 13º lugar na classificação geral e venceu sua classe, resultado particularmente expressivo para um pequeno fabricante independente. No ano seguinte, o mesmo chassi voltou à pista e conseguiu melhorar para 11º lugar geral, enquanto outros exemplares do Le Mans Coupe também participaram de competições na Europa. Ao todo, três dos nove carros chegaram a disputar as 24 Horas de Le Mans.
A carreira comercial do modelo foi, naturalmente, bastante limitada. Os registros da Frazer Nash Archives indicam nove unidades construídas entre abril de 1953 e outubro de 1955, enquanto algumas fontes especializadas estendem a produção até 1956, refletindo a conclusão tardia de determinados exemplares. Independentemente da data considerada, o número permanece o mesmo: apenas nove carros. E há um detalhe extraordinário para os historiadores: segundo os arquivos da própria marca, os nove exemplares originais ainda existem, embora um deles tenha recebido posteriormente uma carroceria aberta de fibra de vidro após sofrer um acidente durante sua carreira esportiva.
O Le Mans Coupe também serviu de laboratório para os próximos passos da Frazer Nash. Sua característica dianteira, com a nova grade horizontal e soluções destinadas a melhorar a refrigeração, seria posteriormente incorporada aos modelos Targa Florio e Sebring. Este último, lançado em 1954 como sucessor dos Le Mans nas competições, compartilhava boa parte da arquitetura do Coupe, mas adotava uma carroceria aberta. Apenas três Sebring seriam construídos.
Quando observamos hoje um Frazer Nash Le Mans Coupe de 1956, portanto, estamos diante de algo muito mais especial do que um simples esportivo britânico antigo. Trata-se praticamente de um carro de corrida com teto, construído por uma pequena empresa que não tinha os recursos dos grandes fabricantes, mas compensava essa desvantagem com leveza, simplicidade e uma obsessão quase artesanal pela competição. Seus 1.971 cm³, 140 cv e 760 kg podem parecer números modestos diante dos esportivos modernos, mas naquele período a combinação era suficiente para transformá-lo em uma máquina extremamente competitiva. O Le Mans Coupe representa, assim, uma das expressões mais puras da tradição britânica dos sports cars: pequeno, leve, raro, tecnicamente engenhoso e concebido antes de tudo para proporcionar velocidade.