FRAZER NASH NÜRBURG CORSICA ROADSTER (1932): O PEQUENO BRITÂNICO QUE NASCEU DE UMA CORRIDA EM NÜRBURGRING
No início da década de 1930, a Frazer Nash era um dos mais peculiares pequenos fabricantes de automóveis esportivos da Inglaterra. Sob o comando de H.J. ‘Aldy’ Aldington, que havia assumido o controle da empresa em 1929, a marca continuava produzindo carros em quantidades mínimas e frequentemente de acordo com as exigências individuais de cada cliente. Essa liberdade resultou em alguns dos mais interessantes esportivos britânicos do período, entre eles o extraordinário Nürburg, criado em 1932 a partir da experiência de um jovem piloto chamado Alfred Peers Fane. Fane havia adquirido o chassi Frazer Nash número 2040 e projetou pessoalmente a carroceria de dois lugares, posteriormente construída pela londrina Corsica Coachworks, uma pequena casa especializada em carrocerias sob medida. O carro foi então inscrito por Fane na corrida de apoio para carros de 1.500 cm³ do Grande Prêmio da Alemanha de 1932, realizada no recém-construído circuito de Nürburgring. Embora tenha abandonado após uma quebra de chassi, o episódio foi tão significativo que seu Frazer Nash passou a ser conhecido como Nürburg, nome posteriormente adotado por mais dois exemplares construídos pela fábrica com a mesma receita de carroceria Corsica. Apenas três carros foram efetivamente produzidos como Nürburg, entre 1932 e 1933, tornando essa uma das mais raras e especiais linhagens da chamada Chain Gang da Frazer Nash.
A carroceria criada por Fane e executada pela Corsica tinha uma aparência puramente esportiva, com dois lugares, portas ausentes, para-lamas independentes, traseira rebaixada e uma longa seção dianteira dominada pelo motor. A Corsica era conhecida por construir praticamente todas as suas carrocerias de maneira individual, normalmente a partir dos desenhos ou desejos de cada cliente, e o Nürburg é um excelente exemplo dessa filosofia artesanal. O primeiro exemplar, o chassi 2040, utilizava originalmente entre-eixos de aproximadamente 2.51 metros, mas depois da experiência no Nürburgring foi reconstruído sobre um chassi seis polegadas mais longo, cerca de 2.67 metros. Essa configuração alongada foi utilizada nos dois Nürburg construídos posteriormente. A própria Frazer Nash nunca tratou esses carros como uma série de produção convencional: eram essencialmente máquinas construídas para clientes específicos, com diferentes combinações de motor, transmissão e preparação.
Sob o capô estava o Meadows 4ED de 4 cilindros e 1.496 cm³, motor de válvulas no cabeçote que se tornara o principal propulsor dos Frazer Nash naquela fase. No Nürburg, entretanto, a unidade recebia uma transformação bastante profunda. A Frazer Nash desenvolveu componentes internos especiais e encomendou a Albert Gough um cabeçote modificado, enquanto nos exemplares superalimentados entrava em cena um compressor Powerplus Nº 9. O motor utilizava ainda um virabrequim Laystall especialmente preparado e, de acordo com a documentação da época, somente elementos fundamentais como bloco, cárter e reservatório de óleo permaneciam próximos da especificação básica do Meadows. Uma publicação técnica histórica registra aproximadamente 100 cv a 5.000 rpm com 15 psi de pressão de sobrealimentação, enquanto a revista Motor Sport, em sua apresentação da gama Frazer Nash para 1933, registrava 105 cv a 4.500 rpm para o Nürburg superalimentado. Havia, portanto, variações entre os próprios exemplares e seus níveis de preparação.
A transmissão era uma das características que tornavam os Frazer Nash tão particulares. Os carros da marca eram conhecidos como ‘Chain Gang’ justamente por utilizarem transmissão final por correntes, solução herdada dos primeiros projetos de Archie Frazer Nash e mantida mesmo quando a empresa evoluiu para automóveis muito mais sofisticados. Em vez de depender de um diferencial convencional e de uma relação final fixa, o sistema permitia trocar facilmente as engrenagens e adaptar as relações de transmissão às características de diferentes pistas e competições. Era uma solução particularmente adequada aos carros esportivos de pequena produção, pois possibilitava alterar o comportamento do automóvel com relativa facilidade e sem os custos associados a uma transmissão convencional de múltiplas relações. Na gama de 1933, a própria Frazer Nash destacava essa característica como uma de suas maiores vantagens competitivas.
A experiência de Fane no Nürburgring acabou transformando o episódio em uma pequena lenda dentro da própria marca. O jovem piloto não apenas levou seu carro a uma das provas mais importantes da Europa continental como também continuou explorando intensamente seu potencial depois do abandono na Alemanha. Com o carro posteriormente reparado, Fane conquistou diversas vitórias de classe em provas de subida de montanha, entre elas uma vitória em sua categoria na tradicional Shelsley Walsh, em 1932, por uma margem de aproximadamente 5.6 segundos. A história também registra que ele participou do Grande Prêmio da Alemanha utilizando inicialmente um motor Anzani, que depois foi substituído por um Meadows. A combinação entre a experiência do piloto, a preparação da Frazer Nash e a carroceria criada especificamente para ele acabou estabelecendo o padrão para os outros dois Nürburg.
A competição continuou sendo parte essencial da personalidade do modelo. Um dos Nürburg, o chassi 2040, retornaria às pistas em 1933 pelas mãos da equipe da própria Frazer Nash. Na corrida de 500 milhas de Brooklands, realizada em setembro daquele ano, o carro foi conduzido por Don Aldington e Lord Selsdon, terminando em sétimo lugar geral. O resultado é especialmente significativo porque demonstra que o Nürburg não era simplesmente um esportivo de aparência agressiva destinado a clientes particulares: a pequena Frazer Nash também o considerava competitivo o suficiente para utilizá-lo em uma prova de resistência de longa duração. O exemplar 2040 seria posteriormente associado à Lady Selsdon e continuaria sua existência esportiva por muitos anos.
A imprensa britânica também reconhecia o caráter extraordinário do modelo. Em sua análise dos carros esportivos de 1933, a Motor Sport descreveu a linha Frazer Nash como particularmente singular pela possibilidade de atender às exigências individuais dos proprietários e destacou o Nürburg como a versão equipada com superalimentação Powerplus. O preço de catálogo começava em £650, valor elevado em comparação com esportivos britânicos muito mais convencionais. A carroceria de dois lugares media aproximadamente 3.75 de comprimento, segundo a publicação, e sua configuração curta e extremamente especializada deixava evidente que o objetivo não era transportar uma família ou oferecer conforto de turismo, mas entregar o máximo possível de desempenho para um automóvel relativamente pequeno.
A raridade do Nürburg é reforçada pelo próprio registro histórico da Frazer Nash. O arquivo da marca identifica apenas três carros construídos entre 1932 e 1933, dois equipados originalmente com Meadows superalimentado e um sem compressor. Não havia, portanto, uma especificação única e completamente padronizada: cada automóvel podia receber uma configuração determinada pelo uso pretendido. Essa característica explica pequenas divergências encontradas nos registros de potência, chassis e equipamentos, mas também ajuda a compreender o fascínio desses automóveis. Cada um era praticamente um projeto individual, desenvolvido para um cliente ou finalidade específica, dentro da pequena oficina de Isleworth.
O Frazer Nash Nürburg Corsica Roadster de 1932 representa, assim, uma das expressões mais puras da filosofia que marcou a Frazer Nash antes da Segunda Guerra Mundial. Seu quatro-cilindros Meadows de 1.5 litros, transmissão final por correntes, chassi especializado e carroceria criada pela Corsica para um piloto específico formavam um conjunto muito mais próximo de um carro de corrida adaptado para a estrada do que de um esportivo convencional. O fato de seu nome ter surgido de uma participação no Grande Prêmio da Alemanha e de apenas três unidades terem recebido essa denominação reforça ainda mais seu caráter excepcional. Em uma época na qual pequenas oficinas inglesas ainda podiam construir máquinas de competição praticamente sob encomenda, o Nürburg foi uma expressão perfeita dessa liberdade - um automóvel concebido menos para seguir padrões industriais e mais para andar depressa, competir e satisfazer o espírito de quem estava atrás do volante.