GLAS 1300 GT (1964): A ELEGÂNCIA ITALIANA ENCONTRA A ENGENHARIA ALEMÃ
Voltemos agora à Alemanha dos anos 1960, mais precisamente a 1964, para conhecer um dos automóveis mais interessantes surgidos de um pequeno fabricante alemão em plena expansão. Apresentado em setembro de 1963 no Salão de Frankfurt, o GLAS 1300 GT representava uma mudança de posicionamento para a Hans Glas GmbH, até então conhecida principalmente por modelos compactos como o Goggomobil. Para criar seu novo esportivo, a empresa recorreu ao renomado designer italiano Pietro Frua, estabelecendo uma combinação particularmente atraente entre estilo italiano e engenharia alemã. As carrocerias eram produzidas pelo encarroçador Maggiora, em Moncalieri, nos arredores de Turin, e posteriormente transportadas para Dingolfing, onde recebiam a mecânica e eram submetidas à montagem final. Era, em essência, um pequeno GT europeu com duas nacionalidades em sua certidão de nascimento.
O resultado do trabalho de Frua era especialmente elegante. Com apenas 4.050 mm de comprimento, 1.550 mm de largura e 1.280 mm de altura, o 1300 GT apresentava uma carroceria fastback de duas portas e configuração 2/2, marcada pelo longo capô, cabine recuada, grande área envidraçada e uma traseira suavemente descendente. Os faróis, a estreita grade horizontal e os discretos detalhes cromados conferiam ao carro uma aparência sofisticada sem recorrer a excessos. O capô, mais baixo que os para-lamas dianteiros, contribuía para a personalidade do modelo e antecipava uma tendência estética que se tornaria cada vez mais comum nos esportivos europeus da segunda metade da década.
A mecânica também estava à altura da aparência. O 1300 GT utilizava um motor de 4 cilindros em linha de 1.290 cm³, refrigerado a água e equipado com comando de válvulas no cabeçote acionado por correia dentada, uma solução tecnicamente avançada para a época e que posteriormente se tornaria amplamente difundida na indústria. Na configuração inicial de 1964, o motor desenvolvia 75 cv a 5.800 rpm e cerca de 104 Nm de torque, alimentado por dois carburadores Solex. A potência era enviada às rodas traseiras através de uma transmissão manual de 4 velocidades, com uma caixa de cinco velocidades disponível posteriormente. Com peso em torno de 900 kg, o pequeno alemão conseguia alcançar aproximadamente 170 km/h, desempenho bastante respeitável para um motor de apenas 1.3 litros.
O comportamento dinâmico refletia a proposta de um verdadeiro GT compacto. A suspensão dianteira era independente, enquanto na traseira havia eixo rígido com molas semielípticas e barra Panhard. Os freios combinavam discos na dianteira e tambores na traseira, e a direção relativamente direta contribuía para tornar o GLAS ágil nas estradas sinuosas. O interior seguia uma filosofia igualmente esportiva, com dois bancos dianteiros individuais, pequenos assentos traseiros e um painel repleto de instrumentos VDO, reforçando a atmosfera de um automóvel muito mais sofisticado do que suas dimensões poderiam sugerir.
A produção em série começou em março de 1964, e o 1300 GT rapidamente se tornou o modelo mais emblemático da GLAS. Na primeira fase, até agosto de 1965, foram construídos pouco mais de 2.000 exemplares do coupe, enquanto a produção total de todos os GT - incluindo as versões 1300, 1700 e os raríssimos conversíveis - chegaria a pouco mais de 5.300 unidades. Em 1965, a GLAS introduziria o 1700 GT, equipado com motor de 1.682 cm³ e 100 cv, além de elevar posteriormente a potência do 1300 para 85 cv. A evolução demonstrava que o pequeno fabricante pretendia disputar espaço entre os esportivos europeus de maior prestígio, ainda que seus recursos financeiros fossem muito mais limitados.
O destino do 1300 GT acabaria, porém, ligado ao de seu próprio fabricante. A GLAS enfrentava dificuldades financeiras crescentes e, em 1966, foi adquirida pela BMW. O novo proprietário percebeu o potencial da elegante carroceria desenhada por Frua e, em 1967, transformou o projeto no BMW 1600 GT, mantendo boa parte do desenho original, mas instalando mecânica BMW e realizando importantes alterações técnicas. A produção do GLAS GT terminou em agosto de 1967, encerrando uma breve, porém extraordinariamente interessante passagem da marca de Dingolfing pelo segmento dos esportivos.
O GLAS 1300 GT de 1964 permanece, assim, como um dos melhores exemplos de como a indústria automobilística europeia dos anos 1960 começava a ignorar fronteiras. Era alemão na engenharia, italiano no desenho e internacional em sua ambição. Pequeno, leve e tecnicamente sofisticado, oferecia o charme de um gran turismo italiano dentro de uma embalagem compacta e com a racionalidade mecânica germânica. Sua produção limitada e sua ligação direta com a origem do futuro BMW 1600 GT fizeram dele muito mais que uma curiosidade histórica: o 1300 GT foi o último grande passo de um pequeno fabricante que, por alguns anos, ousou enfrentar gigantes com uma receita simples e irresistível - engenharia inteligente, baixo peso e uma carroceria assinada por um dos grandes mestres italianos do design automobilístico.