GORDON MURRAY S1 (2028): A ESSÊNCIA DO McLAREN F1 RENASCE PARA AS ESTRADAS
A Gordon Murray Special Vehicles aproveitou a Monterey Car Week 2026 para apresentar o Gordon Murray S1 2028, um superesportivo que representa a interpretação de Gordon Murray para um automóvel de estrada capaz de combinar desempenho extremo com conforto e usabilidade. Revelado no The Quail, o S1 nasce como uma espécie de irmão de estrada do radical S1 LM, apresentado no ano anterior, mas abandona boa parte da agressividade aerodinâmica daquele modelo para assumir uma personalidade mais próxima da de um grand tourer de altíssimo desempenho. A inspiração no McLaren F1 - projeto que consagrou Murray como um dos grandes engenheiros da história do automóvel - é evidente, mas o S1 procura levar aquela filosofia a uma nova geração.
Embora compartilhe a arquitetura básica e a filosofia construtiva do S1 LM, praticamente toda a carroceria do S1 é nova, com exceção do teto. A enorme asa traseira fixa e o gigantesco splitter dianteiro do LM desapareceram, dando lugar a uma superfície mais limpa e elegante, com aerodinâmica ativa integrada à carroceria. As proporções continuam extremamente largas e baixas, enquanto as portas diédricas e a construção predominantemente em fibra de carbono preservam a aparência de um verdadeiro hipercarro. A proposta é deliberadamente menos teatral que a do S1 LM: em vez de parecer um carro de competição autorizado a circular na rua, o S1 pretende ser um supercarro que também pode ser utilizado em viagens longas.
No centro dessa filosofia está o extraordinário motor V12 Cosworth naturalmente aspirado de 4.2 litros, capaz de desenvolver aproximadamente 680 cv e girar até impressionantes 12.100-12.400 rpm, dependendo da especificação considerada. O motor é associado a uma transmissão manual de 6 velocidades, solução que reforça a busca por uma experiência de condução puramente mecânica. Mais importante que números absolutos de potência é a maneira como o conjunto foi concebido: resposta imediata ao acelerador, elevada rotação e uma conexão direta entre condutor, motor e transmissão, exatamente como Murray acredita que um supercarro deve funcionar.
A redução de peso continua sendo uma obsessão. Mesmo acrescentando equipamentos destinados ao conforto e à utilização cotidiana, a GMSV estabeleceu como objetivo manter o S1 abaixo dos 997 kg de peso seco do T.50. Para isso, a fibra de carbono é empregada extensivamente, enquanto cada componente foi analisado sob a filosofia de que massa desnecessária prejudica aceleração, frenagem, agilidade e, sobretudo, a sensação transmitida ao condutor. O resultado é uma relação peso-potência excepcional sem recorrer a sistemas híbridos ou soluções eletrônicas destinadas simplesmente a aumentar os números de desempenho.
A suspensão foi outro ponto profundamente revisado em relação ao S1 LM. O S1 é 10 milímetros mais alto e recebeu amortecedores recalibrados para oferecer maior absorção das irregularidades. Pneus, geometria e acerto do chassi também foram direcionados para favorecer aderência mecânica e estabilidade em estradas reais. A aerodinâmica ativa substitui parte da carga produzida pelos enormes elementos fixos do LM, permitindo que o automóvel altere seu comportamento conforme a velocidade e a situação de condução. É uma abordagem que procura manter a extraordinária capacidade dinâmica do projeto sem transformar cada deslocamento em uma experiência excessivamente comprometida.
No interior, a posição central de condução - uma das marcas registradas de Gordon Murray - foi preservada. Entretanto, o ambiente é consideravelmente mais sofisticado e confortável que o do S1 LM. O habitáculo recebe couro, bancos com conforto adequado a viagens longas, isolamento acústico adicional, vidros laterais que podem ser abaixados, sistema de áudio leve e uma interface de infotainment revisada. A intenção é criar aquilo que Murray descreve como um automóvel capaz de percorrer confortavelmente a costa entre Los Angeles e Monterey, sem abrir mão da sensação de estar sentado no centro de uma máquina de alto desempenho.
A produção será extremamente limitada a apenas 64 exemplares, todos individualmente configurados com seus respectivos proprietários. O número é inferior aos 100 exemplares planejados para o T.50 e demonstra que a GMSV pretende posicionar o S1 como uma peça ainda mais exclusiva. O preço oficial não foi divulgado, mas a empresa confirmou que o modelo ficará abaixo do valor de mercado de um McLaren F1 original - uma referência particularmente ambiciosa considerando que um S1 LM chegou a ser vendido por 20.63 milhões de dólares em 2025, estabelecendo um recorde para a venda em leilão de um automóvel novo, fora de eventos beneficentes.
O Gordon Murray S1 2028 é, assim, uma interpretação bastante pessoal do que deve ser um superesportivo moderno. Em vez de perseguir potência desmedida, eletrificação ou números de aceleração cada vez mais extremos, Murray voltou a concentrar sua atenção em baixo peso, motor aspirado de altíssima rotação, câmbio manual e posição central de condução. O resultado é um automóvel que carrega a memória técnica do McLaren F1, a brutalidade do S1 LM e, ao mesmo tempo, uma nova preocupação com conforto e utilização rodoviária. Se o F1 foi a obra-prima que estabeleceu Gordon Murray como referência entre os supercarros analógicos, o S1 surge como uma espécie de declaração de que essa filosofia ainda pode sobreviver - e evoluir - no século XXI.