HUMBER 9/20 WEYMANN SALOON (1928): A ELEGÂNCIA DISCRETA DE UM SEDAN BRITÂNICO
Na Inglaterra do final dos anos 1920, enquanto o automóvel se tornava cada vez mais presente na vida cotidiana, alguns fabricantes procuravam combinar dimensões compactas com o conforto e a qualidade de construção tradicionalmente associados aos modelos de maior porte. A Humber era uma das marcas que seguiam essa filosofia. Com uma longa trajetória industrial e reputação de produzir veículos bem construídos, a empresa de Coventry desenvolveu no Humber 9/20 uma proposta interessante: um automóvel relativamente pequeno, mas concebido para oferecer uma experiência de condução refinada e espaço suficiente para a família.
O Humber 9/20 Weymann Saloon de 1928 representa uma das interpretações mais curiosas dessa fórmula. O modelo combinava o chassi e a mecânica do 9/20 com uma carroceria do tipo fabric saloon, inspirada no sistema de construção desenvolvido pela empresa francesa Weymann. Em vez de utilizar exclusivamente painéis metálicos rígidos, esse método empregava uma estrutura leve de madeira revestida por material flexível, normalmente tecido tratado, criando superfícies de aparência elegante e reduzindo o peso da carroceria. A solução era particularmente interessante em uma época na qual os fabricantes buscavam melhorar o desempenho e a economia sem recorrer a motores maiores.
O resultado era um sedan de linhas sóbrias, com habitáculo fechado, janelas amplas e acabamento exterior que conferia ao pequeno Humber uma aparência mais próxima à dos automóveis de categorias superiores. A carroceria Weymann não pretendia ostentar o brilho de grandes superfícies metálicas: sua distinção estava na leveza visual, no isolamento proporcionado pelo compartimento fechado e na aplicação de uma técnica construtiva bastante particular.
Engenharia compacta e soluções inteligentes
Sob o capô, o Humber 9/20 utilizava um motor de 4 cilindros em linha, com 1.056 cm³, dotado de válvulas de admissão no cabeçote e válvulas de escape laterais. Essa configuração, conhecida como overhead inlet, side exhaust, representava uma solução intermediária entre os motores tradicionais de válvulas laterais e os sistemas com todas as válvulas instaladas no cabeçote. Nas especificações publicadas para o modelo, a potência chegava a aproximadamente 30 cv a 4.100 rpm, valor expressivo para um automóvel de pouco mais de 1.0 litro de cilindrada.
A transmissão manual de 3 velocidades enviava a força às rodas traseiras. O conjunto incluía embreagem cônica, carburador Cox Atmos e sistema elétrico de 12 volts em determinadas especificações documentadas. A suspensão utilizava molas semielípticas na dianteira e na traseira, solução que contribuía para a estabilidade e para o comportamento previsível do automóvel. Alguns exemplares de 1928 também figuraram entre os primeiros Humber 9/20 equipados com freios a tambor nas quatro rodas, um avanço importante para a segurança em comparação com configurações anteriores.
Com peso em torno de 870 kg nas versões saloon documentadas e velocidade máxima próxima de 85 km/h, o Humber 9/20 não era um automóvel esportivo, mas oferecia desempenho adequado às estradas britânicas de seu tempo. Sua construção relativamente leve ajudava a aproveitar a potência disponível, enquanto as dimensões compactas facilitavam a condução em ruas estreitas e centros urbanos. A combinação entre motor econômico, carroceria fechada e mecânica convencional tornava-o uma alternativa atraente para quem desejava utilizar o automóvel regularmente, sem os custos de um modelo maior.
A carroceria Weymann e a busca pela leveza
O sistema Weymann nasceu da preocupação em reduzir o peso e os ruídos provocados pelas carrocerias rígidas. Em uma estrutura convencional de madeira revestida por chapas metálicas, as vibrações podiam produzir rangidos e pequenas deformações durante a circulação. A técnica Weymann procurava minimizar esse problema por meio de uma estrutura cuidadosamente articulada e de um revestimento flexível, que evitava o contato direto entre grandes painéis metálicos.
No Humber 9/20, essa abordagem resultava em uma aparência discreta e elegante, particularmente adequada a um sedan compacto de quatro lugares. O acabamento em tecido, combinado a para-lamas e componentes externos convencionais, criava um contraste visual característico dos automóveis de carroceria fabricada nesse sistema. A solução também permitia que o fabricante oferecesse uma cabine fechada sem acrescentar tanto peso quanto algumas carrocerias metálicas tradicionais.
A importância desse tipo de construção aparece nos registros de produção do modelo: em 1928, foram fabricados aproximadamente 201 saloons convencionais e 165 saloons de tecido sobre o chassi 9/20, números que demonstram a presença significativa dessa alternativa na gama da Humber. O modelo era oferecido também em configurações abertas, incluindo tourers, o que permitia atender a diferentes preferências de uso.
O 9/20 encerrou sua trajetória em 1928, sendo substituído pelo Humber 9/28 em 1929. O sucessor recebeu alterações de projeto e carroceria, mas o pequeno 9/20 permaneceu como uma representação importante da fase em que a Humber procurava oferecer automóveis compactos com acabamento e engenharia acima do que se esperava de sua categoria.
Mais de um século depois, o Humber 9/20 Weymann Saloon de 1928 continua sendo um exemplo fascinante da diversidade técnica da indústria britânica. Sua importância não está em números espetaculares de potência ou velocidade, mas na maneira como combinava mecânica eficiente, carroceria leve e conforto para o uso cotidiano. Em uma década de profundas transformações, automóveis como esse demonstravam que a inovação também podia surgir de soluções discretas, cuidadosamente aplicadas a veículos concebidos para durar.



















































